1º DOMNGO DO ADVENTO

Marcos 13,33 – 37

Ficai de sobreaviso, vigiai; porque não sabeis quando será o tempo. Será como um homem que, partindo de uma viagem, deixa a sua casa e delega sua autoridade aos seus servos, indicando o trabalho de cada um, e manda ao porteiro que vigie. Vigiai, pois, visto que não sabeis quando o senhor da casa voltará, se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã, para que vindo de repente, não vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: vigiai!

Comentário

Já é hora de acordar! Eis o apelo de Jesus no Evangelho que inaugura este tempo do Advento. Uma nova aurora surge no horizonte da humanidade, trazendo a esperança de um novo tempo de um mundo renovado pela força do Evangelho. Neste tempo de graça, somos convocados a sair do torpor de uma prática religiosa inócua, a acordar do sono dos nossos projetos pessoais vazios e egoístas. Despertos e vigilantes, somos convidados a abraçar o projeto de Deus que vem ao nosso encontro, na espera fecunda do Tempo do Advento, temos a chance de reanimarmos em nós e os compromissos assumidos em favor da construção do Reino, reavivando as forças adormecidas, para a construção de uma humanidade nova, livre das trevas do sofrimento, da marginalização e da morte.

Frei Sandro Roberto da Costa, OFM - Petrópolis/RJ

2º DOMINGO DO ADVENTO

Marcos 1,1 – 8

Conforme está escrito no Profeta Isaias: Eis que envio meu anjo diante de ti: Ele preparará teu caminho. Uma voz clama no deserto: Traçai o caminho do Senhor, aplainai suas veredas (Mt 3,1); Is 40,3). João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados. E saiam para ir ter com ele toda a Judéia, toda Jerusalém, confessando os seus pecados. João andava vestido de pelo de carneiro e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel Sivestre. Ele pôs-se a proclamar: “depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado. Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo”.

Comentário

“Preparai o caminho do Senhor, aplainai as suas veredas”. Clamando pelo deserto, João Batista nos indica que procurar viver conforme a Boa-Nova que Jesus nos trouxe não se trata, simplesmente, de viver dentro de um sistema religioso com certas práticas que nos identificam com tais. Talvez ele queira nos indicar que a fé, antes de tudo é um percurso, uma caminhada, onde podemos encontrar momentos fáceis e difíceis, dúvidas e interrogações, avanços e retrocessos, entusiasmo e disposição, mas também cansaço e fadiga. No entanto, o mais importante é que nunca deixemos de caminhar, pois o caminho se faz caminhando. Boa caminhada de Advento e preparação!

Frei Diego Atalino de Melo

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sexta-feira, 15 de março de 2019

5. O DESPERTAR DO AMOR E A CÁTEDRA DE LITERATURA - 2ª PARTE






A ATUALIDADE DE FREDERICO OZANAM: 






 "O DESPERTAR DO AMOR E A CÁTEDRA DE LITERATURA" 


2a. Parte



Nas férias de Páscoa de 1840 Frederico Ozanam vai a Paris e é recebido pelo Ministro da Instrução Pública  em  sua  residência, o  filósofo Victor Cousin. Este, demonstrando-lhe afeto lhe assegura que pode contar com sua influência  para  obter  a cátedra de Literatura Estrangeira em Lyon. Mas, diz-lhe Cousin, "só coloco uma condição, que acredito que lhe agra dará: quero que  você se inscreva no Concurso de Agregação que acabei de instituir para  a  cátedra de  Literatura  Estrangeira na Sorbona e que se realizará dentro de seis meses. Tenho  o  conhecimento de que vários concorrentes vêm  se  preparando  a  mais  ou  menos um ano e por isso creio que  você,  provavelmente,  não  vencerá. Porém, como o Concurso se realizará  pela  primeira  vez, quero para o seu maior brilho, que dele tomem parte  um  grupo  de  jovens  de  talento.  Peço-lhe, pois, que me proporcione  este  grande  prazer. Uma vez  feito os exames, aconteça o que acontecer lhe  garanto  que você terá a cátedra em Lyon". Ele aceita o desafio, inscrevendo-se no Concurso.

No início de setembro de 1840 retoma a Paris para participar do temível
Concurso  de  Agregação,   cujo programa  compreende  três  literaturas clássicas  e   quatro   estrangeiras. Frederico Ozanam  se  empenhou  de corpo e alma no estudo. Chegou há certos dias estudar, cerca de, 18 ho- ras,  procurando  aumentar  a  probabilidade  de  vitória sobre os outros seis candidatos. Nem por isso deixou  decair  sua atuação  frente a cate- dra de Direito Comercial, e  nem de  atuar  nas obras de caridade de sua Conferência Vicentina.

Terminado os exames houve uma apuração definitiva, computando as médias das notas obtidas nas diferentes provas realizadas, resultando que  no final, Frederico Ozanam  triunfa, obtendo a  maior  nota  e assim conquistando o primeiro lugar. Diante do fato, o decano da Faculdade de Letras, Dr. Victor Le Clerc, remete em 3 de outubro de 1840 ao Ministro  da  Instrução Pública,  o seguinte  informe: 

“O professor  Ozanam, conhecido já em nossa Faculdade, tendo merecido o primeiro posto, não tanto por seus conhecimentos clássicos (que são sem dúvida alguma, muito extensos, ainda, quiçá igual aos outros  professores), como por sua maneira ampla e firme de compreender um autor ao expor um tema, como assim, também, por elevação de seu comentário e por um linguajar que, ao unir a originalidade a razão, e a imaginação a seriedade, indica que está eminentemente capacitado para o professorado público. Foi, também, o único dos candidatos que deu provas de um profundo conhecimento gramatical e literário das duas línguas mortas e dos quatro idiomas estrangeiros indicados no programa”.


Durante o dito Concurso, Frederico Ozanam com liberdade e firmeza, causou surpresa e depois admiração ao auditório, ao expor e defender suas ideias cristãs. Ao ouvir o anuncio de sua vitória, quase não acredita no veredicto, tão grande é sua alegria.

Antônio Frederico Ozanam agora passa a ser o professor adjunto da Faculdade de Letras de Paris. Apressa-se a comunicar o resultado do concurso ao reitor Soulacoix, que tanto o encorajou. A partir de 9 de outubro de 1840, uma portaria ministerial o encarrega da suplência do professor Claude Fauríel na cadeira de Literatura Estrangeira da Sorbonne. Frederico Ozanam terá a responsabilidade de, para o ano de 1841, do curso de literatura alemã na idade média.

Por sua vez, o Ministro da Instrução Pública, Cousin, o nomeia professor titular da cátedra de Literatura Estrangeira em Lyon. Essas nomeações deixam Frederico Ozanam numa situação embaraçosa. Lyon ou Paris? Outro problema surge, a questão dos honorários. Ganharia em Paris, na suplência, um quarto (1/4) do que ganharia em Lyon em um ano: 2.500 francos. Além do mais, existe algo que a algum tempo o vem preocupando: existe um outro sentimento que não quer admitir, mas que, sem dúvida alguma o faz vacilar em sua determinação: o amor que dedica a Amélia Soulacroix. Durante sua permanência em Paris, compreende que está profundamente enamorado, "vencido pelos encantos delicados e incompreensíveis do amor", pois pensa nela e sua imagem o acompanha por toda parte.

De volta a Paris solicita de seu irmão Alfonso que marque uma entrevista com o Dr. Soulacroix para pedir a mão de Amélia. Pe. Alfonso, sendo o membro mais velho da família e na falta dos pais, foi apresentar solenemente Frederico a seu futuro sogro.

Assim relata Pe. Alfonso em seu livro "Vida de Frederico" o acontecimento: "O Sr. Soulacroix nos aguardava em seu escritório. O encontro foi dos mais cordiais; uma bondade tão nobre quanto simples iluminava seu rosto. Faço o pedido e o Sr. Soulacroix responde que concedia a mão de sua filha e em seguida nos conduziu a outro aposento aonde se encontravam sua esposa e filha. Todos estávamos emocionados, e após a troca de felicitações mútuas, a Sra. Soulacoix, a exemplo dos velhos patriarcas, com o coração transbordando de alegria, tomou a mão dos dois futuros esposos, enlaçou-os uma na outra entre as minhas e assim consagrou este enlace que devia estreitar-se para sempre, um pouco mais tarde".

O Dr. Soulacroix, manifesta-se dizendo ser seu desejo que Frederico permaneça em Lyon. Porém Frederico Ozanam, num gesto conciliador diz: deixo a decisão para Amélia. E dirigindo-se a sua noiva, lhe diz com carinho: "Aqui em Lyon você seria mais feliz, vivendo próxima de seus país e irmãos, e teria uma posição mais segura e abastada. Enquanto que, em Paris viverá longe de sua família e passará momentos de intranquilidade e até de pobreza. Porém, renunciar a Sorbonne seria abdicar de uma nobre missão cristã que, com a ajuda de Deus e encorajado por você, eu poderia, sem dúvida, realizar. É por tanto, pedir-lhe demasiado que tenha confiança em si mesma e em mim? Eu não faço mal solicitando que suporte os sacrifícios de uma vida modesta sofrendo um pouco, com paciência, a espera que possa situar-me numa posição melhor?" Sem vacilar, Amélia coloca sua mão na de Frederico, dizendo-lhe: "Tenho plena confiança em você. Rogo-lhe que aceite a suplência da Sorbonne".

Após seis semanas de férias, escreve em 6/12/1840 ao amigo Lallier que residia na cidade de Sens, propondo-lhe visita-lo no dia 16. Diz- lhe, também, que a Providência o havia chamado para o terreno escorregadio que era a capital Paris e que Ele queria dar-lhe um anjo da guarda para o conforto em minha solidão. Solicitando suas preces, diz-lhe:  "Que Deus  conserve para  mim,  aquela  que parece ter escolhido e cujo sorriso é o primeiro raio de felicidade que Ele lançou sobre minha vida desde a perda de meu pobre pai". "Você me achará ternamente enamorado, mas eu não oculto isso, embora às vezes não possa deixar de rir da situação. Eu que me julgava ter o coração mais vacinado contra essas coisas!".

E assim, Frederico Ozanam confessa ao seu melhor amigo que foi vencido "pelos encantos delicados e incompreensíveis do amor". Justamente ele que censurara seus amigos por terem, muito cedo caído na "armadilha do casamento". Que idade tinha ele? O mais jovem professor a lecionar na Sorbone tinha apenas vinte e sete anos!

                                                                                
                                                                                 Mario Maríngulo
















































segunda-feira, 11 de março de 2019

4. O DESPERTAR DO AMOR E A CÁTEDRA DE LITERATURA - 1ª PARTE






A ATUALIDADE DE FREDERICO OZANAM:



   "O DESPERTAR DO AMOR E A CÁTEDRA DE LITERATURA" 
1a Parte

Frederico Ozanam e o padre Noirot caminham pelas ruas de Lyon, numa tarde da primavera de 1840. Dirigem-se  a  residência da família Soula-  croix. É dia do aniversário da jovem Amélia e Frederico Ozanam e Padre Noirot, foram convidados pelos Soulacroix para uma comemoração em família. Nessa tarde, quando os dois se dirigem para a casa de seus amigos, Frederico Ozanam mostrando-lhe um livro que portava cuidadosamente embrulhado, diz-lhe: "Este livro que conta a história de Santa Isabel de Hungria, escrito pelo conde Carlos de Montalembert, foi rotulado de audaz, porque nele se descreve quanto se amavam Isabel e seu esposo, o príncipe Luis de Turingia, e porque sustenta a tese de que se deve contrair matrimônio, não por conveniência, senão, unicamente por amor". "Desejaria saber se você acha correto que eu o presenteie à Amélia". 

Quando chegaram, Frederico Ozanam entrega seu presente à Amélia e lhe diz: "O Padre Noirot me assegurou que você pode ler esta obra com inteira confiança". "Não duvido que seja do meu agrado a leitura deste livro cujo teor tem sido elogiado por muitos", responde-lhe Amélia. "Agradeço a fineza de obsequiar-me com ele". A obra de Montalembert muito agrada aos Soulacroix. Várias vezes Frederico Ozanam têm oportunidade de, com Amélia e seus familiares, analisar passagens da vida e o grande amor de Santa Isabel e seu marido.

E Frederico Ozanam logo percebe que o Sr. e Sra. Soulacroix, haviam dado a sua filha, Amélia, uma educação esmerada, perfeita, infundindo em seu espírito uma ampla e sólida cultura, o qual fazia dela não só uma jovem de vasto conhecimento, também, de conversação interessante e amena. E, ainda, que sua mãe a havia preparada para as tarefas e comando de uma residência. Assim dizia a Sra. Soulacroix: "Amélia possui, também, um talento musical pouco comum e, além disso, ela é rica desses tesouros de ternura e delicadeza que a piedade põe nos corações das mulheres cristãs, para a felicidade de seus esposos e salvação de seus filhos", (Monsenhor Baunard).

Certo dia, ao deixarem a residência dos Soulacroix, Frederico Ozanam participa ao Pe. Noirot que irá a Paris para entrevistar-se com o filósofo Víctor Cousin, que havia sido, novamente, nomeado Ministro de Instrução Pública. Exporia ao Ministro a situação dele quanto â cátedra de Literatura Estrangeira de Lyon, que os esforços do Dr.Soulacroix não haviam dado resultado. E que ele e o reitor, apesar do pouco tempo que se conhecia, já se estimavam com afeição. 

Ora, Pe. Noirot conhecia muito bem a família Soulacroix e como sabemos, conhecia melhor ainda a Frederico Ozanam de quem era amigo e confidente. Pe. Noirot, aproveitando a oportunidade, participa a ele que certo dia tinha confidenciado ao Dr. Soulacroix que via com bons olhos a união dos jovens, Frederico e Amélia, ao que o reitor aprovou com alegria a ideia, pois muito lhe agradava a personalidade e 

promessas do jovem professor. Meio sem jeito, Pe. Noirot pôs timidamente Frederico Ozanam a par de suas secretas e amigas iniciativas.Frederico Ozanam, embasbacado com que ouviu nada disse. Perdera a voz. Com muito trabalho pela frente, as aulas de Direito Comercial, assuntos de advocacia, estudos para o concurso, fizera com que ele nada percebesse. Não acreditava no que acabara de ouvir, e acaba levando tudo na brincadeira. Mas, a curiosidade o perturba e faz com que arrume pretextos para ir a casa do reitor e poder observar aquela que lhe está destinada.

Diante do que tomara conhecimento, Frederico Ozanam passa a analisar mais detidamente vários  fatos  acontecidos.  Chaurand casara-se no dia 2 de janeiro. Lallier lhe participa por carta o nascimento do seu primeiro

primeiro filho. Lembra que  em carta  de 15/02/1840 diz ao seu querido
amigo Lallier: "Concedeu-te Deus  o  inefável consolo de contemplar tua 
juventude renascer, sob os traços da infância, 
na pessoa de um filho. Feliz aquele que primeiro nasce de um 
casamento precoce! Gozará  de companhia de seus pais no 
frescor dos anos, e não lhes verá os cabelos embranquecerem senão quando ele mesmo já estiver amadurecido, e o adeus do 
túmulo será para um mais próximo encontro". "Não é um 
fardo que Deus te impôs; é um anjo pequenino cuja presença 
santifica o teu lar, tornando-te a virtude mais fácil e a vida 
mais suave".

Frederico Ozanam participa da felicidade de seus amigos. É claro que se alegra porque gosta deles e deseja que sejam felizes, mas, estranha tudo o que se refere ao amor, pois não o compreende. Estes acontecimentos, somados aos casamentos de Le Talandier, Arthaud e La Perriere, o deixam feliz e lembram-lhe que completará 27 anos.A maioria de seus amigos já está posicionada na vida. Para Frederico Ozanam, o homem deve se expandir, criar, dar o máximo de si e alcançar uma estabilidade apreciável antes de "se amarrar" ao braço de uma mulher e criar uma família.
Em carta de 5 de outubro 1837 a Lallier, assim expusera o seu pensamento a respeito do matrimônio: "A questão do casamento frequentemente se apresenta ao meu espírito. Contudo não me sai da mente sem nela deixar incríveis contradições. Sou mais fraco que muitos outros e receio os devaneios de meu coração. De um modo geral eu não compreendo as mulheres. É sobretudo a perpetuidade (para sempre) do compromisso que me apavora".

Mário Maríngulo



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

3. FREDERICO OZANAM E A MISSÃO NA IMPRENSA




FREDERICO OZANAM
E A MISSÃO NA IMPRENSA


Ao falarmos de Frederico OZANAM e sua atuação na imprensa em sua época, é sempre bom esclarecer ou lembrar o panorama histórico, a situação da França em 1830, onde a política fervia com seus adeptos empenhados em uma série variada de lutas e ataques contra o regime de Luiz Felipe(¹). A semente do liberalismo(²) plantadas em terra fértil por mãos criminosas visava principalmente perseguir a Igreja, em nome da liberdade, enfraquecendo o seu poder e seu líder máximo: o Papa. Como havia dito Voltaire(³) era necessário "estrangular a infame".

                Por outro lado, o desregramento dos costumes, o gosto literário e científico da época se perverte e degenera no meio de tanta futilidade. Rebelam-se contra Deus e a Igreja, sonhando com a destruição das bases da religião, sendo que no ensino oficial predomina a preocupação, tendenciosa, de aniquilar Deus. Não se deve estranhar se a situação é desoladora e que a família se desmorona e a juventude seja incrédula.

                A Universidade de Sorbone(4), fundada pelo cristianismo em 1250, é o templo de ciência a serviço da deusa razão.

                É nesse quadro desolador que vamos encontrar Frederico Ozanam, disposto a lutar com todos aqueles que se insurgem contra a Igreja, seus dogmas e seus membros, com as armas que dispõe: sua cultura unida à uma inteligência esclarecida, habilidade de argumentação, fé viva e inabalável e, de uma grandeza moral a toda prova.

             Foi providencial para a história do catolicismo francês a chegada de Frederico Ozanam em Paris, onde soube utilizar com maestria a cátedra onde lecionava e os encontros literários, as Conferências de História e outras oportunidades que surgiam. Utilizou de modo expressivo os recursos de comunicação existentes, inclusive a imprensa, como meio de expor e transmitir suas idéias e, também, como meio de evangelização.

         Acentuamos em artigo da edição anterior como Frederico Ozanam, quando ainda morava em Lyon, utilizando-se do periódico intitulado "L'Abeille Française",  publicou um artigo sobre o tráfico negreiro e combateu o São Simonismo; esse artigo versava sobre a refutação desta doutrina, também escreveu no jornal o "Precursor" sobre o mesmo tema. Artigos de grande repercussão o introduziram no mundo das letras. Os artigos publicados em um volume foram elogiados por Chateaubriand e Lamartine.

                Em 1830 o professor de filosofia Manoel José Bailly trabalhava com afinco para reanimar a fé religiosa na França. Com o surgimento de nova onda de descristianização promovida pela reação dos adeptos do filósofo Voltaire, fundou o periódico "La Tribune Catholique". Em 1833 esse jornal fundiu-se ao periódico do abade Migne, cujo nome era "L'Univers Religieux". Dessa fusão nasceu o diário católico mais famoso do século XIX. Teve seu auge por volta de 1839 quando esteve sob a direção do talentoso escritor, convertido ao catolicismo, Luis Veuillot.

               Frederico OZANAM foi um dos primeiros redatores de "L'Univers". Em outra ocasião, assim escreveu Frederico Ozanam na "A Tribuna Católica": "Quanto mais a ciência tem avançado e feitos novos descobrimentos, mais ela aproximou-se da Revelação, à semelhança de um rio imenso que se aproxima do mar".

                BAILLY dirigia uma antiga agremiação denominada Conferência de Bons Estudos, a qual passou a ser frequentada por Frederico Ozanam. Em 1832 passou a chamar-se "Conferências de História"; BAILLY era o presidente e convidou Frederico Ozanam e outros jovens "amantes do estudo e da verdade" a fazer parte dela. Convencionou-se que BAILLY cederia o salão para as reuniões e dirigiria as sessões e, Frederico Ozanam como vice-presidente teria a incumbência de conseguir conferencistas e participantes. Em 1/12/1832 iniciaram-se os trabalhos e depois de muita luta e empenho viram seus esforços coroado de êxito. Era crescente o número de estudantes que frequentavam com assiduidade as Conferências de História, pois se tornaram conhecidas e comentadas, durante o período que durou: um ano. 

             O grande momento histórico deu-se quando do debate entre Frederico Ozanam e Juan Broet. Aconteceu quando naquele dia o tema escolhido era sobre a fé atuante. Broet, o jovem são-simoniano tinha fama de ser muito bem preparado e inteligente. Solicita a palavra e frontalmente ataca os militantes católicos: "A fé de vocês está nos livros, não nas obras; que fazem vocês para ajudar os pobres, os deserdados? No passado a Igreja realizou maravilhas, mas atualmente, o que faz pelo gênero humano? E vocês que se orgulham de ser católicos, provem que o cristianismo vive, não com eloquentes discursos, mas com obras sociais e, então acreditaremos em vocês"(5) E, segue Broet com voz pausada e potente expondo durante meia hora as teorias são-simonianas e como o cristianismo estava morto.

         Ao fim do longo debate, após a saída de Broet, os partidários de Frederico Ozanam se levantam, o cercam e felicitam. Mas ele sente-se cansado, pensativo e preocupado com tudo o que acaba de ouvir. Le Taillandier se aproxima com  Devaux e lhe diz: "Nossos debates são batalhas de palavras; você falou bem Frederico, mas é hora de passar aos atos, você não pensa assim?". "Você tem razão, afirma Frederico Ozanam. É preciso que permaneçamos juntos. Pois o que mais agrada a Deus é IR AOS POBRES, como fazia Jesus quando pregava o Evangelho. VAMOS AOS POBRES, para agradar a Deus e para que a caridade seja um meio de santificação".(6) Dias depois, no dia de seu aniversário, ao completar 20 anos, Frederico Ozanam,  junto com  os companheiros José Manuel Bailly, Francisco Lallier, Augusto Le Tailandier, Julio Devaux, Paulo Lamache e Felix Clavé, fundam a Conferência de Caridade, que, pouco tempo depois, passou a chamar-se Sociedade de São Vicente de Paulo.

               Frederico Ozanam no seu tempo de estudante vira com tristeza tantos jovens como ele, longe do lar, "pobres aves de arribação sobre as quais paira o abutre do pensamento, a incredulidade". Pensou então em criar um centro onde os jovens cristãos pudessem exercerem sólidos laços de amizade e a prática da caridade aos pobres.

                   As Conferências de Caridade fundada sob as bênçãos de um Patrono celestial como São Vicente de Paulo, o atleta da caridade do século XVII, e sob a proteção da Imaculada Virgem Maria, iriam assegurar a perseverança dos jovens e ao mesmo tempo, dar testemunho da vitalidade benéfica da Igreja Católica.

                Desde sua chegada a Paris, Frederico Ozanam ambicionou cátedras, que no seu dizer, "servissem aos seus jovens amigos como meio para se elevarem e, ao mesmo tempo, se instruir". Para isso dedicou grande parte da sua vida, pois tinha como sacerdócio o ensino.

                Pretendendo doutorar-se em letras, Frederico Ozanam elaborou o trabalho sobre “Dante e a Filosofia Cristã no Século XIII”. Fascinado pelo poema sagrado que o autor intitulou Comédia e os pósteros chamaram Divina, traça o caráter do poeta, estudando-o na sua vida e na sua obra.

                Frederico Ozanam, refutando opinião segundo a qual Dante era considerado um adversário da Igreja, afirma sua ortodoxia e prova a sua submissão ao papado. Concluído o trabalho, Frederico Ozanam, envia-o a Lallier, encarregando-o de introduzi-lo na Sorbone. A apreciação da tese se fez em 7 de janeiro de 1839. Era dedicada a Lamartine, a Ampère filho e ao Padre Noirot.

               Frederico Ozanam se apresenta ao exame e responde a todos os quesitos. Mas, o êxito é a tese sobre Dante. Cousin, entusiasmado com a prova, exclama: “Senhor Ozanam, não se pode ser mais eloquente”. À coroar a exposição, Frederico Ozanam declara francamente: Não tenho a grande alma de Dante, mas tenho a sua fé”. Reboara na sala uma fragorosa ovação. Conquistara Frederico Ozanam o diploma de doutor em letras. Diz o biografo Carranza “que não se tinha memória de um exame tão brilhante”.
                "Na Sorbone, diz Guillemin(7),  deu Frederico Ozanam exemplo de um método de rigorosa investigação, cujo princípio fundamental consistia em não se divulgar senão o que fosse estritamente verificado".

                 Em 1834, publicou os artigos sobre os cursos ministrados na Sorbone pelo padre Frère. No "Universo Religioso" publicou diversos artigos comentando as grandes festas religiosas, sobressaindo o artigo sobre a Anunciação e a devoção à Nossa Senhora, e destacando sua influência nas belas artes.
                Em colaboração com Lallier refutou um curso de Lerminier, desenvolvendo o tema que, devido a certas investidas, o ensino da história religiosa deveria ser incrementado e mais largamente difundido entre os jovens. Ainda em colaboração com Lallier, traduziu poesias do escritor italiano Silvio Pellico, homem de grande religiosidade e em cujo epitáfio se escreveu "Sob o peso da Cruz aprendeu o caminho do Céu".

                    Em 1834 publicou no jornal "França Católica" o início de uma série de estudos, com a finalidade de esclarecer e ao mesmo tempo ser um ato de acusação do catolicismo contra o romantismo, que definiu como "literatura egoísta e sensual, a qual se proclama inspirada e, entretanto, ostenta sobre os altares do belo e do sublime a imagem do horror e do extraordinário".

                 Em seu tempo soube Frederico Ozanam utilizar os meios e recursos que imprensa oferecia, em defesa da Igreja, de fidelidade a Cristo e em favor dos jovens que tanto amou e influenciou. Ainda, colaborou e publicou artigos nos periódicos "O Contemporâneo", "Amigo da Religião", "Correspondente", "Anais da Propagação da Fé", "Novo Correspondente", "Monitor Religioso" e "Revista Européia".

                  Ouçam os jovens, principalmente os universitários o seu apelo, ainda vibrante após mais de um século e meio e, os ensinamentos de Cristo proclamados por um dos seus discípulos mais fiel: ANTÔNIO FREDERICO OZANAM.
                                                                          

                                                                           Mário Maríngulo

Notas:
  1. Luís Filipe I, Filho de Filipe e de Luíza de Bourbon, rei dos Franceses de 1830 a 1848. Estabeleceu a monarquia liberal.
  2. Liberalismo: O conjunto de idéias e doutrinas que visam assegurar a liberdade individual no campo da política, da moral, da religião, etc. dentro da sociedade. (Aurélio).
  3. Voltaire: poeta e prosador francês (1694-1778). Cultivou todos os gêneros. A sua influência literária e social foi enorme. É o escritor francês por excelência.
  4. Sorbone:fundada em 1250 pelo Pe. Roberto de Sorbón, capelão e confessor de são Luís, Rei da França, é o colégio mais antigo da Universidade de Paris.
  5. Carranza: "Ozanam e seus contemporâneos", pág. 138 e seguintes.
  6. Carranza: "Ozanam e seus contemporâneos", pág. 138 e seguintes.
Jornais e publicações onde colaborou
"A Abelha"e o "Precursor" de Lião - " O Contemporâneo", "Amigo da Religião", "Correspondente", "Anais da Propagação da Fé", "Nova Era", "Novo Correspondente", "Universo Religioso", "Tribuna Católica", "Monitor Religioso", "Revista Européia"
        














terça-feira, 28 de novembro de 2017

2. OZANAM, PROFESSOR DOS POBRES



Ozanam, professor dos pobres


                                Docente Universitário, jornalista, pai de família,                              sobretudo antecipador do  catolicismo  social da
Rerum novarum.



        Frederico Ozanam é de modo geral,  pouco conhecido na Itália: a sua fama se deve quase unicamente ao aspecto caridoso de sua obra, e está na fundação da Conferencia de São Vicente. A Sociedade de São Vicente de Paulo, de resto, é de fato a síntese da principal característica de Ozanam: a caridade, o pensamento social, a apologética.

O pensamento social

        É a análise da causa da miséria  que leva Frederico Ozanam a de- senvolver o seu pensamento social. A questão social para ele não é só de ordem econômica, mas também  moral e  como tal põe aí o peso da responsabilidade da consciência cristã.

     Ao dia seguinte do movimento revolucionário de 1848 em Paris, Ozanam escreveu ao irmão abade: "Atrás da questão da república que não interessa a outros que a gente culta, há dois problemas que interessam ao povo como a organização do trabalho: do descanso semanal, e do salário.  De outra parte não se pode pensar em  enfrentar estes problemas sem envolver o crédito financeiro, o comércio, a indústria. Se o Estado intervém entre o patrão e operário para regular o salário, a liberdade de que o comércio desfrutou até agora cessa de existir e fica na espera de que essa possa se reconstituir sob novas leis, quanta dificuldade e sofrimentos deverão enfrentar."

       E em outro lugar: ''O perigo, que os alegra de não mais os ver na estrada, e sim às escondidas nos sótãos das casas que os apoiam. A revolta é apaziguadora, mas fica um inimigo que não conhece bastante a miséria!" (L'Ere Nouvelle: Alie persone per bene" 1848).

        Tem um dualismo significativo do ponto de vista econômico, entre o período histórico em que viveu Ozanam e o atual: o primeiro era a época da  evolução industrial, provocada pela introdução da máquina a no ciclo produtivo, hoje é o advento da automação com a introdução do computador, e as consequências sobre o homem-trabalhador são comparáveis.

       Segundo Ozanam, desde sempre tem se tratado de determinar como e em  qual medida os homens teriam participado da riqueza produzida pelas atividades. No século XlX, a questão do trabalho se apresenta  sob novas expectativas. Na primeira metade daquele século, se forma a grande indústria e o regime do assalariado engloba um número sempre maior de indivíduos. Uma concorrência desenfreada se alastra entre os empreendedores. No centro deste fato os economistas pretendem orientar a ação para uma liberalidade sempre maior entre o nascente socialismo, para uma contração que parece necessária.

        De primeiro Ozanam diz que "não tem outra lei no trabalho que aquela do interesse pessoal, isto é, a insaciabilidade dos patrões". Da escola do socialismo atribui-se "de verdade todo o mal a uma distribuição viciosa , e acreditam em salvar a sociedade suprimindo a concorrência". E conclui que "estes dois sistemas, dos quais um reduz o destino do homem a produzir e o outro a gozar, deságuam ambos, por via diversas, no materialismo".

        Ozanam apoiando a questão social em um ponto de vista cristão, reconhece que a religião não exclui a princípio, nenhum regime econômico, porque justiça e dignidade da pessoa humana são respeitados. Em particular, o respeito não é devido somente para a pessoa do trabalhador, mas também para sua família, com a consequente salvaguarda dos deveres e dos encargos  que comporta, respeito pelos preceitos religiosos de onde estes possam em conflito com o trabalho, garantia de higiene física e moral no lugar de trabalho.

        O pensamento de Ozanam sobre questões de trabalho e daquilo que ele chama "o salário natural" exposta na lição de direito comercial está assegurada na lei desde 1840: "O operário é considerado como um instrumento do qual tirar o maior proveito ao mínimo preço ou então como um sócio, um auxiliar" [ ... ] "No primeiro caso é a exploração do homem, é a escravidão. O operário-máquina não é outro que uma parte do capital" [...], "mas noutro caso, se o operário é tratado como um colaborador humano" [...] "o salário deve compensar os três elementos que o operário põe ao serviço da indústria, a corajosa boa vontade, certo conhecimento técnico, a força. "A vontade lhe dá direito ao necessário para viver. Os seus conhecimentos formam o capital pelo qual merece receber o interesse e a amortização, com isto pode pagar a educação dos filhos. Enfim, a força é um capital que um dia se exaurirá: o operário tem, portanto, direito a pensão, senão seria a sua vida, um lugar a fundo perdido".

A propriedade


        Ozanam toma posição também sobre questões da propriedade privada, que considera legítima, mas com deveres anexos: "a justiça exige que cada um tenha o direito exclusivo sobre as coisas que possui, e a caridade que se pede, é que cada um esteja disposto a oferecer aos outros na medida do próprio supérfluo e do necessário alheio". E a tal propósito faz suas as famosas palavras de Santo Ambrósio: "O pão que vós conservastes é o pão do esfomeado, os vestidos guardados nos armários são aqueles dos indigentes que ficam nus, os sapatos que desde muito apodrecem são aqueles do miserável que caminha descalço, e são os dinheiros dos pobres aqueles que vós enterrastes".

     Enquanto leigo Ozanam foi corajoso também ao solicitar  aos sacerdotes de seu tempo: “Vós amastes os pobres de vossa paróquia, acolhestes caridosamente o indigente que bate a vossa porta, mas não espera que ao chamá-lo ele esteja lá. Mas, veio o tempo de se ocupar de outro povo que não mendigam e  que vivem normalmente do próprio trabalho e aos quais não se assegurará mais o direito ao trabalho e a assistência quando estiverem precisando  de ajuda, de conselho ou de consolo. Foi o tempo de ir a procura daquele que não chamamos, que relegados aos bairros de má fama, talvez não tenham mais conhecido, nem a Igreja, nem o sacerdote, nem o doce nome de Cristo!”   
         
        Frederico Ozanam enfim solicita da instituição intermediaria  entre o Estado e cidadão em dificuldade e afirma que "a maioria dos cristãos se enganam acreditando-se com a consciência limpa para o próximo, para cuidar dos necessitados, como se não houvesse uma classe imensa não de indigentes, mas de pobres que não perguntam por esmolas, mas pela situação".

        A ação caritativa,  tempo também de justiça e de progresso social, Ozanam condiciona a conquista da paz e mostra todo o seu senso profético e a atualidade de seu pensamento na carta de 13/11/1836: ''A questão que divide os homens de hoje não é mais uma questão de forma política, é uma questão social, é saber se vencerá o espírito do egoísmo ou o espírito do sacrifício ... Está-se preparando uma luta entre estas duas classes de homens e esta luta ameaça ser terrível: de uma parte o poder do ouro, da outra o poder do desespero. Temos pressa entre essas duas fronteiras hostis, se não para impedir o impacto, ao menos para atenuá-lo. Ser jovem e de uma medíocre condição social, facilita a tarefa de mediadores que o nosso título de cristãos torna obrigatório. Aqui a possível utilidade da nossa Sociedade de São Vicente de Paulo".

O Apologista


      Com apenas 16 anos Federico Ozanam é atraído pelo estudo da religião e pensa em um trabalho intitulado "Demonstração da Religião Católica através da antiguidade da crença hebraica, religiosa e moral". Esta obra nunca será realizada como concebida, mesmo que a ideia ainda esteja em torno do ensinamento da literatura estrangeira, da qual Ozanam era professor na Sorbona: ele vai se empenhar em estudar a história da literatura na civilização, na qual o cristianismo floresceu e nela descobrir, principalmente, o trabalho do cristianismo.


       Um grande amigo de Ozanam, o filho do célebre físico Ampère, disse sobre esses trabalhos que para  explorados, é um pouco "como caminhar no estúdio de um escultor que morreu prematuramente, entre obras já concluídas e outras apenas esboçadas".

 Publicado no jornal "L'Osservatore Romano", secção "La voce del populo, em 13/07/1997.