FREDERICO OZANAM
E A MISSÃO NA IMPRENSA
Ao falarmos de Frederico OZANAM e
sua atuação na imprensa em sua época, é sempre bom esclarecer ou lembrar o
panorama histórico, a situação da França em 1830, onde a política fervia com
seus adeptos empenhados em uma série variada de lutas e ataques contra o regime
de Luiz Felipe(¹).
A semente do liberalismo(²) plantadas em terra fértil por mãos
criminosas visava principalmente perseguir a Igreja, em nome da liberdade,
enfraquecendo o seu poder e seu líder máximo: o Papa. Como havia dito Voltaire(³)
era necessário "estrangular a
infame".
Por outro lado, o desregramento
dos costumes, o gosto literário e científico da época se perverte e degenera no
meio de tanta futilidade. Rebelam-se contra Deus e a Igreja, sonhando com a
destruição das bases da religião, sendo que no ensino oficial predomina a
preocupação, tendenciosa, de aniquilar Deus. Não se deve estranhar se a
situação é desoladora e que a família se
desmorona e a juventude seja incrédula.
A Universidade de Sorbone(4), fundada
pelo cristianismo em 1250, é o templo de ciência a serviço da deusa razão.
É nesse quadro desolador que
vamos encontrar Frederico Ozanam, disposto a lutar com todos aqueles que se
insurgem contra a Igreja, seus dogmas e seus membros, com as armas que dispõe:
sua cultura unida à uma inteligência esclarecida, habilidade de argumentação,
fé viva e inabalável e, de uma grandeza moral a toda prova.
Foi providencial para a história
do catolicismo francês a chegada de Frederico Ozanam em Paris, onde soube utilizar
com maestria a cátedra onde lecionava e os encontros literários, as
Conferências de História e outras oportunidades que surgiam. Utilizou de modo
expressivo os recursos de comunicação existentes, inclusive a imprensa, como meio de expor e
transmitir suas idéias e, também, como meio de evangelização.
Acentuamos em artigo da edição anterior
como Frederico Ozanam, quando ainda morava em Lyon, utilizando-se do periódico intitulado "L'Abeille Française", publicou um artigo sobre o tráfico
negreiro e combateu o São Simonismo; esse artigo versava sobre a refutação desta doutrina, também escreveu no jornal o "Precursor" sobre o mesmo tema. Artigos de grande repercussão o introduziram no mundo das letras. Os artigos publicados em um volume foram elogiados
por Chateaubriand e Lamartine.
Em
1830 o professor de filosofia Manoel José Bailly
trabalhava com afinco para reanimar a fé religiosa na França. Com o surgimento
de nova onda de descristianização promovida pela reação dos adeptos do filósofo Voltaire, fundou
o periódico "La
Tribune Catholique". Em 1833 esse jornal fundiu-se ao periódico
do abade Migne, cujo nome era "L'Univers Religieux".
Dessa fusão nasceu o diário católico mais famoso do século XIX. Teve seu auge
por volta de 1839 quando esteve sob a direção do talentoso escritor, convertido
ao catolicismo, Luis Veuillot.
Frederico OZANAM foi um dos primeiros redatores de "L'Univers". Em outra
ocasião, assim escreveu Frederico Ozanam na
"A Tribuna Católica": "Quanto mais a ciência tem
avançado e feitos novos descobrimentos, mais ela aproximou-se da Revelação, à
semelhança de um rio imenso que se aproxima do mar".
BAILLY dirigia
uma antiga agremiação denominada Conferência de Bons Estudos, a qual
passou a ser frequentada por Frederico Ozanam. Em 1832
passou a chamar-se "Conferências de História"; BAILLY
era o presidente e convidou Frederico Ozanam e outros
jovens "amantes do estudo e da verdade" a fazer parte dela.
Convencionou-se que BAILLY cederia o
salão para as reuniões e dirigiria as sessões e, Frederico Ozanam como
vice-presidente teria a incumbência de conseguir conferencistas e
participantes. Em 1/12/1832 iniciaram-se os trabalhos e depois de muita luta e
empenho viram seus esforços coroado de êxito. Era crescente o número de
estudantes que frequentavam com assiduidade as Conferências de
História, pois se tornaram conhecidas e comentadas, durante o período que durou:
um ano.
O grande momento histórico deu-se quando do debate entre Frederico Ozanam e Juan Broet. Aconteceu quando naquele dia o tema escolhido era
sobre a fé atuante. Broet, o jovem
são-simoniano tinha fama de ser muito bem preparado e inteligente. Solicita a
palavra e frontalmente ataca os militantes católicos: "A fé de vocês está nos livros,
não nas obras; que fazem vocês para ajudar os pobres, os deserdados? No passado
a Igreja realizou maravilhas, mas atualmente, o que faz pelo gênero humano? E
vocês que se orgulham de ser católicos, provem que o cristianismo vive, não com
eloquentes discursos, mas com obras sociais e, então acreditaremos em vocês"(5) E, segue Broet
com voz pausada e potente expondo durante meia hora as teorias
são-simonianas e como o cristianismo estava morto.
Ao fim do longo debate, após
a saída de Broet, os
partidários de Frederico Ozanam se
levantam, o cercam e felicitam. Mas ele sente-se cansado, pensativo e
preocupado com tudo o que acaba de ouvir. Le Taillandier se
aproxima com Devaux
e lhe diz: "Nossos debates são batalhas de
palavras; você falou bem Frederico, mas é hora de passar aos atos, você não
pensa assim?". "Você tem razão, afirma Frederico Ozanam. É preciso que
permaneçamos juntos. Pois o que mais agrada a Deus é IR AOS POBRES, como fazia
Jesus quando pregava o Evangelho. VAMOS AOS POBRES, para agradar a Deus e para
que a caridade seja um meio de santificação".(6) Dias
depois, no dia de seu aniversário, ao completar 20 anos, Frederico Ozanam, junto com os companheiros José Manuel Bailly, Francisco
Lallier, Augusto Le Tailandier, Julio Devaux, Paulo Lamache e Felix Clavé, fundam a Conferência
de Caridade, que, pouco tempo depois, passou a chamar-se Sociedade
de São Vicente de Paulo.
Frederico Ozanam no seu
tempo de estudante vira com tristeza tantos jovens como ele, longe do lar,
"pobres aves de arribação sobre as quais paira o abutre do
pensamento, a incredulidade". Pensou então em criar um centro onde os jovens cristãos
pudessem exercerem sólidos laços de amizade e a prática da
caridade aos pobres.
As Conferências
de Caridade fundada sob as bênçãos de um Patrono celestial como São
Vicente de Paulo, o atleta da caridade do século XVII, e sob a proteção da Imaculada
Virgem Maria, iriam assegurar a perseverança dos jovens e ao mesmo tempo,
dar testemunho da vitalidade benéfica da Igreja Católica.
Desde
sua chegada a Paris, Frederico Ozanam ambicionou cátedras, que no seu dizer,
"servissem aos seus jovens amigos como meio para se
elevarem e, ao mesmo tempo, se instruir". Para isso
dedicou grande parte da sua vida, pois tinha como sacerdócio o ensino.
Pretendendo
doutorar-se em letras, Frederico Ozanam elaborou o trabalho sobre “Dante e a
Filosofia Cristã no Século XIII”. Fascinado pelo poema sagrado que o autor
intitulou Comédia e os pósteros chamaram Divina, traça o caráter
do poeta, estudando-o na sua vida e na sua obra.
Frederico Ozanam, refutando opinião segundo a qual Dante era considerado um adversário da
Igreja, afirma sua ortodoxia e prova a sua submissão ao papado. Concluído o
trabalho, Frederico Ozanam, envia-o a Lallier, encarregando-o de
introduzi-lo na Sorbone. A apreciação da tese se fez em 7 de janeiro de
1839. Era dedicada a Lamartine, a Ampère filho e ao Padre
Noirot.
Frederico Ozanam se apresenta ao exame e responde a todos os quesitos. Mas, o êxito é a tese
sobre Dante. Cousin, entusiasmado com a prova, exclama: “Senhor
Ozanam, não se pode ser mais eloquente”. À coroar a exposição, Frederico Ozanam declara
francamente: “Não tenho a grande alma de Dante, mas tenho a sua fé”. Reboara
na sala uma fragorosa ovação. Conquistara Frederico Ozanam o diploma de doutor em letras. Diz o biografo
Carranza “que não se tinha memória de um exame tão brilhante”.
"Na Sorbone, diz Guillemin(7), deu Frederico Ozanam exemplo de um método de rigorosa investigação, cujo princípio
fundamental consistia em não se divulgar senão o que fosse estritamente
verificado".
Em
1834, publicou os artigos sobre os cursos ministrados na Sorbone pelo padre Frère.
No "Universo
Religioso" publicou diversos artigos comentando as grandes
festas religiosas, sobressaindo o artigo sobre a Anunciação e a
devoção à Nossa Senhora, e destacando sua influência nas belas artes.
Em
colaboração com Lallier refutou um
curso de Lerminier, desenvolvendo o tema que, devido a certas
investidas, o ensino da história religiosa deveria ser incrementado e mais
largamente difundido entre os jovens. Ainda em colaboração com Lallier,
traduziu poesias do escritor italiano Silvio Pellico, homem de
grande religiosidade e em cujo epitáfio se escreveu "Sob
o peso da Cruz aprendeu o caminho do Céu".
Em 1834
publicou no jornal "França Católica" o início de uma série de
estudos, com a finalidade de esclarecer e ao mesmo tempo ser um ato de acusação
do catolicismo contra o romantismo, que definiu como "literatura
egoísta e sensual, a qual se proclama inspirada e, entretanto, ostenta sobre os
altares do belo e do sublime a imagem do horror e do extraordinário".
Em seu tempo soube Frederico Ozanam utilizar
os meios e recursos que imprensa oferecia, em defesa da Igreja, de fidelidade a
Cristo e em favor dos jovens que tanto amou e influenciou. Ainda, colaborou e publicou artigos nos periódicos "O Contemporâneo", "Amigo da Religião", "Correspondente", "Anais da Propagação da Fé", "Novo Correspondente", "Monitor Religioso" e "Revista Européia".
Ouçam os jovens,
principalmente os universitários o seu apelo, ainda vibrante após mais de um
século e meio e, os ensinamentos de Cristo proclamados por um dos seus
discípulos mais fiel: ANTÔNIO FREDERICO OZANAM.
Mário
Maríngulo
Notas:
- Luís Filipe I, Filho de Filipe e de Luíza de
Bourbon, rei dos Franceses de 1830 a 1848. Estabeleceu a monarquia
liberal.
- Liberalismo: O conjunto de idéias e doutrinas
que visam assegurar a liberdade individual no campo da política, da
moral, da religião, etc. dentro da sociedade. (Aurélio).
- Voltaire: poeta e prosador francês (1694-1778).
Cultivou todos os gêneros. A sua influência literária e social foi enorme.
É o escritor francês por excelência.
- Sorbone:fundada em 1250 pelo Pe. Roberto de
Sorbón, capelão e confessor de são Luís, Rei da França, é o colégio mais
antigo da Universidade de Paris.
- Carranza: "Ozanam e seus
contemporâneos", pág. 138 e seguintes.
- Carranza: "Ozanam e seus
contemporâneos", pág. 138 e seguintes.
Jornais e
publicações onde colaborou
"A Abelha"e o "Precursor" de Lião - " O
Contemporâneo", "Amigo da Religião", "Correspondente",
"Anais da Propagação da Fé", "Nova Era", "Novo
Correspondente", "Universo Religioso", "Tribuna
Católica", "Monitor Religioso", "Revista Européia"