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"A humildade atrai para a alma todas as outras virtudes; e de pecador que se era, pelo fato de se humilhar, torna-se agradável a Deus". |
Paris, 30 de Junho de 2008
CARTA-CIRCULAR AOS MEUS QUERIDOS CONSÓCIOS MEMBROS DAS CONFERÊNCIAS DE SÃO VICENTE DE PAULO NO MUNDO.
Queridos amigos e consócios:
Quero deixar três temas à reflexão dos meus consócios no mundo, neste contato íntimo e fraterno que, tradicionalmente, tenho com todos vós em meados de cada ano.
"Quando Jesus bebeu o vinagre, disse: tudo está
cumprido, e inclinando a cabeça, entregou o espírito"
(Evangelho de São João - 19, 30)
A) Que queres de mim, Senhor?
O Evangelho de São João que a Santa Igreja nos propõe para Sexta-feira Santa recorda-nos, um ano após outro, estas palavras, as últimas de Jesus, antes de exalar o Espírito. Verdadeiramente tudo estava cumprido. O Redentor tinha vindo com uma missão clara para habitar entre os homens: oferecer-nos o perdão de Deus dando a sua vida em troca. Tudo estava consumado após uns anos de ensinamentos sobre a forma como nós deveríamos se dirigir ao Pai e até como deveríamos entender a nossa relação com os outros homens, com a introdução do novo mandamento: "Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei" (São João - 13, 34). Apenas faltava entregar a Sua vida e entregou-a.
O Filho de Deus, Aquele que se fez homem entre nós, tinha vindo ao mundo com uma missão e tinha-a cumprido. Isto é, o seu nascimento, vida pública, entrega a uma morte com suplício e posterior ressurreição, não foi fruto de uma casualidade. Não foi um acidente. Não. Foi a assunção plena, consciente e responsável de uma missão encomendada e aceite até às últimas consequências. Jesus vence também a tentação de se escapar, de evitar o suplício que Ele conhece de antemão, mas exclama dirigindo-se a Quem O havia enviado: "Não se faça a minha vontade, mas a Tua" (Lucas - 22, 42). É o último ato de uma vida plenamente entregue à missão que Lhe foi confiada.
Não apenas Jesus, ainda que em menor medida e, fundamentalmente, sem podermos comparar com a grandeza da missão que o Redentor recebe, todos nós viemos ao mundo com uma missão encomendada, isto é, quando o Bom Deus contempla o nosso nascimento, o de cada um de nós, sonha para cada um uma vida, uma missão, um compromisso que deseja que descubramos e nos entreguemos a Ele para contribuir para melhorar o mundo e a própria História da Salvação. Depois segue, com interesse, a maneira como cada um de nós fazemos uso da liberdade que Ele próprio nos concedeu e observa, a maioria das vezes com tristeza, como correspondemos à semente que depositou na nossa alma. Melhor, como não correspondemos, correndo atrás de vãs ilusões que nos hão-de ir afastando daquela missão que nos foi confiada.
Cada consócio, cada membro das Conferências de São Vicente, deve meditar profundamente nesta passagem do Evangelho de São João e perguntar-se qual é a sua missão, para poder dizer ao findar a vida: "tudo está cumprido". O que nos pede o Criador do mundo e como espera a resposta de cada um de nós, para a desenvolver.
Porque não é algo que afete apenas os outros. É uma chamada que afeta também cada um de nós: a cada um dos membros das Conferências de São Vicente de Paulo e em que falhamos com a mesma intensidade que o resto dos homens. Chegar às Conferências, integrar-se nelas e passar anos no meio dos consócios participando da dor dos mais pobres, não é suficiente se não conseguirmos descobrir o que é que o Bom Deus quer de cada um ao serviço das Conferências, que é o lugar no qual temos vindo caminhando atrás da nossa vocação de serviço aos mais pobres.
Até o mais humilde de nós tem uma missão sonhada para ele pelo Bom Deus e que temos a obrigação de descobrir e entregar-nos a ela.
Para cada um dos consócios, é necessário um processo de discernimento, de conhecimento íntimo dos seus valores mais profundos e também dos seus defeitos. Um processo de discernimento no qual temos de encontrar, sem dúvida, a ajuda dos que nos rodeiam quando os ouvimos, escutando atentamente, para que nos considerem mais ou menos úteis. Um processo de discernimento que encontraremos sempre no encontro com o Bom Deus através da oração individual e comunitária no seio da Conferência.
Senhor, que queres de mim? Poderia e deveria ser a pergunta de todos nós. Que quer o Bom Deus de ti, querido amigo que lê estas linhas, no seu serviço, nas Conferências. No seu serviço, em concreto, na Conferência que serve. Senhor, que queres de mim? Pois é certo que descobrirá qual é essa missão particular e íntima que o Bom Deus lhe tem reservada e que será, sem dúvida alguma, diferente da que me estabelecerá a mim como meta ou à de qualquer outro dos restantes consócios. Senhor, que queres de mim?
Esse processo de discernimento obriga-nos a estar permanentemente em guarda com o que acontece à nossa volta. Pois, o Bom Deus, não nos fala diretamente, mas fala com muita frequência através dos que nos acompanham na vida ou, em algum momento, se cruzam nos nossos caminhos. Quem não se sentiu interpelado pelas palavras de um consócio, de um amigo, de um acontecimento fortuito sucedido ao nosso redor?
A Conferência, cada uma delas no serviço que presta aos mais pobres e também aos consócios que a compõem, não é mais do que a soma das vontades dos seus componentes. Isto é: o seu serviço está diretamente influenciado pela qualidade de cada um dos seus membros na sua entrega à vida comunitária da Conferência. Portanto, a vida de cada uma das nossas Conferências estará diretamente influenciada, na sua capacidade de serviço, pela nossa capacidade de ter escutado o que o Bom Deus quer de cada um e de como o ponhamos ao serviço da mesma, escutando então todos juntos o que o Espírito de Verdade, o Senhor que dá a Vida, espera de nós como comunidade cristã ao serviço dos pobres. ¹
Senhor, que queres de mim?² É uma pergunta fundamental para cada um dos consócios, que há-de iluminar a sua própria vida e enriquecer a da Conferência a que pertença. Aprofundando inclusivamente para além da individualidade, é uma pergunta que cada uma das Conferências no mundo deve fazer, cada vez que examinem o seu serviço a favor dos mais pobres. É verdade que estamos a fazer o que Deus quer que façamos e o que os pobres necessitam?
Temos que imaginar, queridos consócios, o que cada um de nós será capaz de dar ao mundo se escutarmos a chamada, a descodificarmos, a aceitarmos e, em seguida, a aplicarmos à nossa maneira de viver. Temos de estar conscientes de que faremos um mundo melhor se cada um for capaz de responder afirmativamente à missão que Deus nos encomenda. Temos de estar conscientes de que, se não o fizermos assim, algo permanecerá sem enriquecer o mundo, devido ao nosso desleixo, e que ele será um pouco menos bom porque nós não fomos capazes ou não quisemos entregar-nos à missão que o Criador nos tinha confiado.
São perguntas já feitas individual ou também coletivamente e que cada um de nós, vicentinos, devemos fazer-nos continuamente para poder dizer um dia imitando o Bom Deus: "tudo está cumprido". São perguntas que nos farão abandonar a complacência em que muitos vivemos e que nos aproximarão da autêntica inquietação em que devemos viver enquanto estamos, realmente, respondendo às expectativas que o Bom Deus, desde o princípio dos tempos, esperou de cada um de nós.
Há uma pergunta que a todos nos parecerá incrível, inconcebível e próxima do irreverente. Mas permitam-me fazê-la para terminar a reflexão desta primeira parte da minha Carta. Que seria de todos e de cada um de nós, de toda a Humanidade, se Jesus, fazendo uso da Sua liberdade, tivesse atraiçoado a vontade do Seu Pai? Se jamais tivesse podido dizer "tudo está cumprido"? Que esperança teríamos hoje?
Não terá a mesma repercussão. Evidentemente. Mas para a continuidade da História da Salvação, Deus quer contar com as pequenas dádivas com que ilumina cada um dos que nascem. Cada um dos baptizados. Que deixaremos de trazer ao mundo se não nos fizermos a pergunta: Senhor, que queres de mim? Se depois fugimos do cálice que nos confiaram. É uma pergunta que todos devemos fazer-nos, permanentemente, ao longo da nossa vida.