1º DOMNGO DO ADVENTO

Marcos 13,33 – 37

Ficai de sobreaviso, vigiai; porque não sabeis quando será o tempo. Será como um homem que, partindo de uma viagem, deixa a sua casa e delega sua autoridade aos seus servos, indicando o trabalho de cada um, e manda ao porteiro que vigie. Vigiai, pois, visto que não sabeis quando o senhor da casa voltará, se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã, para que vindo de repente, não vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: vigiai!

Comentário

Já é hora de acordar! Eis o apelo de Jesus no Evangelho que inaugura este tempo do Advento. Uma nova aurora surge no horizonte da humanidade, trazendo a esperança de um novo tempo de um mundo renovado pela força do Evangelho. Neste tempo de graça, somos convocados a sair do torpor de uma prática religiosa inócua, a acordar do sono dos nossos projetos pessoais vazios e egoístas. Despertos e vigilantes, somos convidados a abraçar o projeto de Deus que vem ao nosso encontro, na espera fecunda do Tempo do Advento, temos a chance de reanimarmos em nós e os compromissos assumidos em favor da construção do Reino, reavivando as forças adormecidas, para a construção de uma humanidade nova, livre das trevas do sofrimento, da marginalização e da morte.

Frei Sandro Roberto da Costa, OFM - Petrópolis/RJ

2º DOMINGO DO ADVENTO

Marcos 1,1 – 8

Conforme está escrito no Profeta Isaias: Eis que envio meu anjo diante de ti: Ele preparará teu caminho. Uma voz clama no deserto: Traçai o caminho do Senhor, aplainai suas veredas (Mt 3,1); Is 40,3). João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados. E saiam para ir ter com ele toda a Judéia, toda Jerusalém, confessando os seus pecados. João andava vestido de pelo de carneiro e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel Sivestre. Ele pôs-se a proclamar: “depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado. Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo”.

Comentário

“Preparai o caminho do Senhor, aplainai as suas veredas”. Clamando pelo deserto, João Batista nos indica que procurar viver conforme a Boa-Nova que Jesus nos trouxe não se trata, simplesmente, de viver dentro de um sistema religioso com certas práticas que nos identificam com tais. Talvez ele queira nos indicar que a fé, antes de tudo é um percurso, uma caminhada, onde podemos encontrar momentos fáceis e difíceis, dúvidas e interrogações, avanços e retrocessos, entusiasmo e disposição, mas também cansaço e fadiga. No entanto, o mais importante é que nunca deixemos de caminhar, pois o caminho se faz caminhando. Boa caminhada de Advento e preparação!

Frei Diego Atalino de Melo

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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

18. OZANAM NÃO MORREU








OZANAM NÃO MORREU




"Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?"

Bem inspirado pelo Céu andaram os que escolheram estas palavras do Evangelho para ornar o túmulo de Frederico Ozanam.

Morrem somente aqueles cujo nome se desfaz na memória da humanidade com as cinzas do corpo. Mas, o do apóstolo da caridade refulge e se dilata com o tempo, revivendo na lembrança da vida que levou, gravada nas páginas que legou ao mundo e em cada novo soldado vicentino que se alista nas fileiras das legiões da caridade.

Mais de um século e meio faz que desapareceu ele ao olhar dos homens. Permanece-lhes, porém, no coração pelo amor que irradiava do seu; imprimiu-se-lhes na mente pelas luzes que se desprendiam da sua. Milhares de vicentinos, disseminados pelo mundo, em todas as horas do dia, reunidos para a prática da caridade, que tão ardorosamente lhes ensinou, repetem-lhe o nome e nele buscam a chama com que possam aquecer o próprio coração e o coração dos pobres que ele lhes confiou.

Dia a dia se propaga a sublimidade de sua vida, os primores da inteligência com que o prendou o Céu, o zelo de que se achava possuído para combater pela sua Igreja, o sonho de fraternidade cristã que ambicionava implantar na terra, o carinho com que procurava mitigar os sofrimentos da miséria, o desassombro com que defendia a única solução verdadeira para os problemas sociais, a solução que Leão XIII proclamou em uma das mais célebres de suas encíclicas.

Apesar de se ter esquivado o mundo de seu tempo a seguir-lhe a voz, ela continua a ressoar, clamando sem cessar por essa comunhão de princípios que deve regê-lo para que se estabeleça a paz na terra: o consorcio da justiça e da caridade. Nessa união reside o segredo da equação para a qual tantas soluções têm sido propostas em vão. A justiça não poderá jamais reinar no mundo, se quiser reinar sozinha. É preciso para que se possa ela exercer entre os homens, de maneira benéfica, que esteja consorciada com a caridade. Aquela, sem estar ligada a esta, e posta na mão dos homens, redundará, na prática, em instrumento cego das paixões humanas, fomentando a luta de classes, as revoluções e a prepotência, pois que será regulada pela concepção que cada um fizer, a seu bel prazer, do que seja o direito, mirando-o à luz do próprio interesse. Amalgamando-se, porém, com a caridade, transformar-se-á em instrumento sublime da paz pela harmonia, em vez da luta, entre as classes sociais. No detentor do poder essa união despertará o equilíbrio, nos homens a compreensão, o perdão nos ofendidos, a honestidade nas ações, a liberalidade nos afortunados, a paciência nos que esperam.

A justiça é inflexível, a caridade tolerante; a justiça é cega, a caridade vê com os olhos do coração; a justiça fere, a caridade cura o sofrimento.
Tudo isto ensinou Ozanam, e as lições de ontem são ainda, e mais ainda, as de hoje.

Enquanto não lhe derem ouvidos a essa voz, que se faz eco da voz do próprio Cristo, não verá a humanidade a paz que ambiciona, e caminhará para a ruína, dizimando-se nos campos de batalha, ou perdendo o melhor de suas fôrças na esterilidade das revoluções.

Mas, tanto que se não extinguirem vozes como a de Ozanam, ainda restará ao mundo a doçura de uma esperança e a força para levar avante a sublimidade da doutrina que pregou, e, com ela, a paz entre os homens.
* * *
"Como poderei ter medo de Deus se o amo tanto!"

Felizes daqueles que puderem, como Frederico Ozanam, assim se despedir do mundo para reencetar a vida na plenitude de Deus! Por que, na verdade, recear a morte se esta é tão somente o início da verdadeira vida em Cristo, para a qual passamos a viver na terra?

Como temer o encontro de um ente que constituiu o objeto maior de nosso amor? É assim que sucede na terra quando se avizinha o momento de nos avistarmos com um ente querido?

Verdade é que, por fraqueza ou ignorância, muitas vezes nos esquecemos da verdadeira finalidade de nosso destino, e nos apegamos ao que é fugaz e até nocivo a esse objetivo supremo da existência do homem na terra.

Era essa noção da pequenez do homem, ante a finalidade sublime a que Deus o destinou, que fazia os lábios trêmulos de Ozanam proferirem, na voz que se apagava:

"Meu Deus! meu Deus tende piedade de mim"!

Esta exclamação brotava, porém, de uma alma que sentia toda a distância que separa o ser humano de um Deus. Era o reconhecimento da própria fragilidade ante a grandeza de Quem o criara; era a súplica de quem se reconhecia indigno da imensidade do amor divino, apesar do amor que Lhe retribuía como homem, mas tão distante daquele de que era alvo; era a compreensão que se tornava nítida em sua alma, nesse momento em que toda a sua vida parecia sintetizar-se em sua morte, de que mais ainda devia ter feito, não obstante o muito que fizera, para corresponder à missão que Deus lhe confiara.

Não era, pois, temor que lhe arrancava do peito esta súplica, mas a humildade que, a par de seu amor, lhe ornava o coração.

Não era temor, pois ele bem sabia que o amor e a justiça divina seriam o escudo a que se abrigaria sua fraqueza: amor tão intenso à humanidade que originou o maior dos milagres, a incarnação de um Deus na pessoa divina de um Cristo; justiça que por ser de um Deus não poderia deixar de ter em conta a fragilidade do homem, apesar de sua liberdade. Ele não julgava que a esse amor se viesse contrapor a justiça, para julgar o homem com a implacabilidade da justiça humana.
A justiça em Deus, não se apartando n'Ele do amor, ao pronunciar-se sobre as ações humanas, haveria de pesar a contingência natural do homem. Não seriam os homens em relação a Deus, assim como crianças em relação a um pai amoroso, que perdoaria por um sorriso de carinho do filho pequenino a falta cometida, desde que lhe divisasse no olhar a mágoa de o haver molestado?

Era esta compreensão do juízo de Deus que lhe inundava o coração de suavidade ao despedir-se da vida.

Quando já o mal que lhe minava as fôrças o levara à Itália, em busca de lenitivo, estava ele um dia a contemplar a tarde que caía enquanto o sol parecia engolfar-se ao longe no mar. Notou sua esposa que um sorriso lhe pairava nos lábios e que seu sembrante se revestia de imensa doçura. Carinhosamente, então, lhe perguntou: Qual o dom de Deus reputava ele o maior? E Ozanam, revelando o que sentia, sem hesitar lhe respondeu: “a paz do coração".

Não o assaltava, pois, o receio de comparecer ao tribunal do seu divino julgador; antes, era a tranquilidade de quem sente no juiz o peso do amor.

Ao regressar à França, onde queria repousar, por lá tanto haver trabalhado, pediu à esposa que com ele bendissesse a Deus pelas dores que havia sofrido, acrescentando:

“Eu O bendigo também pelas consolações que me concedeu".

Tudo lhe vinha desse Deus em que depositava a segurança do sua fé e a ternura de seu amor, dele aceitando, e ainda o bendizendo, os espinhos e as flores com que lhe juncara o caminho.

Em seu testamento, referindo-se àqueles que haviam sido os companheiros de sua obra em beneficio da humanidade sofredora, despedia-se deles, num convite para o Céu, e na promessa de sua assistência:

"Espero firmemente que não nos separaremos para sempre, porque eu ficarei convosco até irdes para mim".

Seja, pois, a aspiração maior de um vicentino, não faltar à reunião que lhe aprazou no Céu o fundador de sua Sociedade, e sua prece seja a exclamação de Lacordaire:

"Senhor, fazei que sejamos como Ozanam!"

E, enquanto houver um vicentino na terra, Ozanam não morrerá.

                                                                     
                                                                                                   CFD. JOÃO PEDREIRA DUPRAT


quarta-feira, 31 de julho de 2019

17.NO ANIVERSÁRIO DA MORTE DE ANTÔNIO FREDERICO OZANAM








No aniversário da morte de Antônio Frederico Ozanam


O grande mestre da oratória Sacra, Padre Lacordaire, ao concluir seu panegírico sobre Ozanam, proferiu as seguintes palavras:

"Meu caro senhor Ozanam! nenhum de nós deixará o vácuo que nos deixou, nenhum de nós tirará do coração dos homens o que tirastes do nosso. Vós nos precedestes na morte porque nos havíeis precedido na virtude: os pobres rogaram por vós e nos arrebataram vossa alma.

Aceitai estas páginas onde eu quis delinear alguma sombra do que éreis para nós. Eu as escrevi para vós, para vós que tostes durante vinte anos, senão o mais forte, pelo menos o mais puro objeto de nossos cuidados, e cujas fraquezas, se alguma existiu em vós escondida porque éreis homem, não fizeram mais que tornar mais querida a vossa inquebrantável constância nas coisas que amastes e defendestes. Fostes o mestre de muitos, o consolador de todos. Escolhido por Deus, após muitos anos de humilhação, para invocar a glória nos campos da verdade, cumpristes fielmente até o vosso último dia essa missão de honra e de paz. O pobre vos viu à sua cabeceira, a tribuna literária de pé ante uma geração, e a imprensa, esse outro instrumento do bem e do mal, teve na vossa pessoa um honesto e religioso artífice. Não deixastes mágoa em ninguém, a não ser essa mágoa que sara com a morte porque foi a caridade que a provocou. Tendo ficado atrás de vós, não temos mais a alegria de vos ver e de vos ouvir; mas resta-nos ainda a de vos louvar e, quaisquer que sejam os destinos que nos esperam no limiar extremo de nossa carreira, a alegria maior ainda de vos imitar de longe, se Deus o permitir."

Não foram menos eloquentes as conclusões de outros estudiosos da vida e obra de Ozanam.

O padre François Méjecaze, por exemplo, assim termina o seu estudo intitulado "A alma de um santo leigo:

“Omne quodcumque facitis in verbo aut in opere, omnia in nomine Domini Jesu Christi gratias agentes Deo..."
("Faça o que fizer por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças a Deus ...").

Tal é a linha de conduta que São Paulo fixa aos fiéis de Colosso, que ele deseja ver progredir no caminho da salvação: tudo fazer por Deus.

Ozanam bem entendeu a senha do Apóstolo das Nações e esforçou-se por observá-la fielmente em todos os dias da sua vida; suas ações ultrapassam, com efeito, o mundo da matéria e do pensamento para inscrever-se em pleno sobrenatural.

Ele se humilha diante de Deus pelas suas deficiências e fraquezas, e em troca O agradece pelos dons naturais que lhe dispensou.

Ele ama seus pais, seus irmãos, seus amigos, sua esposa, sua filha, em Deus e por Deus.

Seu pensamento está sempre orientado para a glorificação e a defesa da Igreja católica, visando a assegurar o reino de Deus neste mundo.

A natureza e as artes não são para ele senão o reflexo da imagem divina.

A exemplo dos santos ele cumpre a vontade de Deus pondo em prática todas as virtudes cristãs.

Sua ação política e social não tem outro objetivo que o de fazer conhecer, amar e servir a Deus pelo maior número de almas.

No trabalho e nos lazeres, diante de seus familiares e alunos, na prosperidade e na adversidade, nos sorrisos e nas lágrimas, frente à vida e frente à morte, a alma de Ozanam canta sem cessar à Deus um cântico de fé, de esperança e de amor.

Carranza, no seu livro "Ozanam e seus contemporâneos" assim se manifesta:

“Um dos historiadores da vida de Ozanam disse que se sua obra literária e apologética se assemelha a uma dessas esplêndidas catedrais góticas cujo coroamento ficou incompleto, sua obra caritativa pode ser comparada a uma árvore que traz em si germes permanentes de vida, e que por isso as Conferências Vicentinas não cessaram de aumentar, como não deixa de crescer a árvore ainda que haja falecido quem a plantou”.

"Por nossa vez”, acrescenta Carranza, se a obra de Ozanam dá abundantes frutos desde há um século, seu plano social, esquecido durante muitos anos, volta hoje a ser conhecido em muitas nações, e é adotado e posto em prática ali onde triunfa e se impõe a doutrina da democracia cristã. E parece-nos que de novo faz-se ouvir na terra a voz de Ozanam, que vem do além para dizer-nos com sua eloquência de então:

“O fim de toda a sociedade não é estabelecer o poder do maior número, mas a liberdade de todos. Lutai, pois, em prol de uma democracia que vós liberte das tiranias da direita e da esquerda. O chauvinismo conduz à guerra. A força só obtém soluções transitórias. O absolutismo estatal acaba semeando ódios e revoluções. A luta de classes divide a humanidade em dois campos antagônicos que se aniquilam mutuamente. Tão somente a Caridade, a Justiça e a Liberdade - agindo em consonância - podem cimentar o progresso do gênero humano. Se sois cristãos de verdade, deveis interpor-vos entre a burguesia e o proletariado - como se interpôs Monsenhor Affre - e até deveis dar vossa vida - como ele deu a sua - para que pobres e ricos, operários e patrões, governantes e governados possam voltar a olhar-se como irmãos, pois morrendo e não matando é que se consegue a paz social. E com toda a segurança conseguireis essa paz social de modo estável se selardes uma aliança, forte e sincera, entre um cristianismo integral e uma autêntica democracia que estabeleça na terra, como lei fundamental das nações, os princípios universais e eternos do Evangelho de Cristo Nosso Senhor".

Tal é a mensagem de Ozanam que, conforme escreveu o Santo Padre Leão XIII "ainda que morto, ainda nos fala através dos seus escritos, produzindo os mesmos bons frutos que produzia em vida com seus discursos e seu exemplo."

O bispo Monsenhor D'Andrea referindo-se a Ozanam disse: "Ozanam continua vivo ... vive no coração de todo cristão que conhece e admira sua obra caritativa... vive na doutrina social da Igreja que tomou de seus escritos muitos de seus ensinamentos... vive no espírito de milhares de vicentinos que trabalham nos cinco continentes para aliviar a miséria dos necessitados ... e vive em todo homem que procura recristianizar  nossa sociedade paganizada!"

Por isso, continua Carranza, o Cardeal Manning pedia a Deus que fizesse nascer em todas as nações homens semelhantes a Ozanam e SS. São Pio X manifestava que, no século XX "todos aqueles que trabalham para dar à sociedade civil uma orientação cristã, devem ter Ozanam como chefe, mestre e guia."

Destaca ainda o padre Méjecaze alguns aspectos da mensagem social de Ozanam, muito oportunos para o momento crítico porque passa a humanidade, por que passa a nossa Pátria: Ozanam, dá menos importância à forma de governo que ao desejo de ser evitado que, por preguiça, os católicos procurem uma que os liberte de seus deveres encarregando-a de uma missão que Deus não lhe deu.

"Nós não temos suficiente fé, dizia Ozanam, desejamos sempre o restabelecimento da religião pelas vias políticas, sonhamos, sempre com um Constantino que de um golpe e um só esforço reconduza os povos ao redil". É uma tentação má de desânimo fazer assim apelo ao proselitismo legal. Não, e não, as conversões, pelas consciências, que é preciso procurar uma por uma". Os acontecimentos externos, as crises políticas, as crises industriais, as crises domésticas têm certamente influência sobre a moralidade. É possível temperar o que há de imprevisto na condição humana pela previdência das instituições. A sociedade é suscetível de aperfeiçoamento e de progresso. Mas é o homem que faz o seu destino, que é senhor, sob muitos aspectos, da sua felicidade e de sua desgraça no tempo: "Nós declaramos que nada se terá feito que não se tenha procurado, não no exterior, mas no interior, as causas da felicidade do homem e os princípios inimigos de sua paz, enquanto não se tenha levado a luz e a reforma nessas desordens interiores que o tempo não repara".

Essa é a diretriz de Ozanam aos cristãos que não querem desesperar de uma situação crítica e procuram assegurar o lugar da Igreja no triunfo da democracia.

Atividade caritativa, progresso social, paz entre as classes, era a preocupação permanente de Ozanam: Utopia, dirão alguns. Sim, utopia em uma sociedade que não é cristã. Mas um programa possível de desenvolver e realizar, em uma sociedade, como a nossa, que tem dentro de si, apesar das aparências contrárias, um fermento de cristianismo. Não serão as barricadas, como pensava Ozanam, que em uma nação em que os batizados são maioria, o sinal exterior das relações entre classes, mas a Cruz, penhor de reconciliação e de paz.

Na sua pregação sobre o apostolado da caridade traçou Ozanam o verdadeiro sentido do papel a ser representado pelas Conferências Vicentinas:

"Nós não desejamos crer na ingratidão dos povos: nós cremos somente na importância das palavras para salvação dos povos se elas não estão alicerçadas nas instituições. Acreditamos em duas espécies de assistências, uma que humilha os assistidos, outra que os honra. Não é o governo somente, são os homens votados pela religião ou por humanidade ao serviço dos pobres nos tempos difíceis que devem escolher entre essas duas maneiras de socorrer os homens”.

"Sim, a assistência humilha, quando ela toma o homem por baixo, pelas necessidades terrenas tão somente, quando ela não olha senão para os sofrimentos do corpo, ao grito de fome e de frio, ao que causa piedade, ao que cuidamos até nos animais. A assistência humilha, se ela nada tem de reciprocidade, se não levardes a vossos irmãos a não ser um pedaço de pão, uma roupa, um punhado de palha que nunca tereis talvez a pedir-lhe, se o colocais na condição dolorosa para um coração bem formado de receber sem dar; se, alimentando os que sofrem, vos mostrardes somente preocupados em abafar as queixas que entristecem a estada em uma grande cidade, ou de conjurar os perigos que lhe ameaçam a tranquilidade."

"Mas a assistência honra quando ela toma o homem pelo alto, quando ela se ocupa, primeiro de sua alma, de sua educação religiosa, moral, política, de tudo, o que o afaste de suas paixões e de uma parte de suas necessidades, de tudo o que O torna livre, de tudo o que possa torná-lo grande. A assistência honra quando ela junta ao pão que alimenta, a visita que consola, o conselho que esclarece, o aperto de mão que levanta a coragem abatida; quando ela trata o pobre com respeito, não somente como a um igual, mas como um superior, porque ele sofre o que nós talvez não sofrêssemos, porque ele está entre nós como um enviado de Deus para experimentar nossa justiça e nossa caridade, e salvar-nos por nossas obras".

"Quando a assistência torna-se honrosa porque pode tornar-se mútua, porque todo o homem que deve uma palavra, um conselho, uma consolação hoje, pode precisar de uma palavra, de um conselho, de uma consolação amanhã, porque a, mão que apertais aperta por sua vez a vossa, porque essa, família indigente que amastes vos amará, e que ela estará mais que desobrigada quando aquele ancião, essa piedosa mãe de família, aquelas crianças, houverem rezado por vós".

"Eis porque a Igreja deu à assistência tal como ela o desejou, esse doce nome de caridade, que não é preciso repelir como tantas vezes se fez, que significará mais que esse nome popular de fraternidade: porque todos os homens não se amam e caridade significa amor!"

"Eis um exemplo. Em muitos arrabaldes de Paris, a distribuição de socorros aos operários faz-se por portadores assalariados, quase como essas pessoas opulentas que distribuem suas esmolas pelas mãos de seus lacaios. Como poderiam as famílias assistidas comover-se diante de um benefício que tem sua justificativa mas também a aridez de uma medida policial? Já se viu gente reconhecida e comovida até as lágrimas diante da regularidade com que começam a funcionar os chafarizes pela manhã, ou em cada noite se iluminam as ruas? O governo salvou da miséria doze mil cidadãos cedendo-lhes terras na Algéria. Providenciou ele com um louvável cuidado à solenidade da partida, ao conforto do transporte, às necessidades materiais da primeira instalação. Mas o que fez ele para as necessidades do espírito? No dia marcado para a partida, geralmente um domingo, porque uma missa celebrada no próprio local de embarque não distribuiria as consolações da fé a essas famílias itinerantes cujos corações perturbados pedem uma proteção mais poderosa que a dos homens? Onde estão os assistentes que acompanharão a nossa colônia nessas terras perigosas, sob esse céu de fogo: cujos ardores são talvez menos abrasadores que as paixões? onde estão os asilos, as escolas, onde o ensino que formará não só as crianças mas os adultos numa condição nova, nas lições de higiene que salvará suas vidas, na agricultura em que irão dedicar-se?"

"Ides abrir novos postos de aquecimento. É uma medida benéfica. Mas pensastes no emprego dessas longas noites? Abandonareis esse repouso à propaganda do vício e do motim?, ou aproveitareis essa oportunidade privilegiada de reunir homens para re-encaminhá-los a seus lares mais esclarecidos e melhores?” (Melanges 291).

"A caridade, é o pensamento dominante de Ozanam, deve ser empregada antes de tudo para instruir e moralizar, a formar homens que possam dispensar a assistência material. Ela estende até os setores dos deserdados o campo dos conhecimentos úteis. Esse o papel, insistentemente defendido por Ozanam, do apostolado intelectual da caridade. E por isso, pode ele ser considerado como o iniciador, pelo menos em ideia, do que depois passou a ser feito: círculos de estudos, bibliotecas, conferências, universidades populares. Despertar a inteligência é um bem; fortificar a necessidade não é menos necessário. O papel da verdadeira caridade é, não tornar-se indispensável, mas preparar o pobre a dispensar o socorro, como a prevenir a miséria por uma ação oportuna sobre os que ainda não mendigam, mas que a indigência espreita. Ozanam quer que se cuide com solidariedade do operário que vive normalmente do seu salário, mas que uma infelicidade pode privá-lo momentaneamente do seu ganha-pão" (L. Cent. 369)

É a uma espécie de cruzada caritativa que Ozanam convidava sacerdotes, ricos, representantes do povo: a uma cruzada que não visasse somente ao alivio das misérias individuais, mas ao progresso como uma consequência lógica, necessária do cristianismo, "que contem, dizia ele, todas as verdades dos reformadores modernos e nenhuma de suas ilusões, único capaz de realizar a fraternidade sem imolar a liberdade." (L. Cent. 369).

Um dos mais belos sonhos de Ozanam era o da fundação de Universidades Católicas.

Sobre o túmulo de Ozanam desabrochou uma dessas Universidades. Foi ele sepultado, conforme seu desejo, em um desses santuários no distrito de Paris que foi campo de seus estudos e de seu apostolado. Seus amigos escolheram a cripta da histórica igreja dos carmelitas. Essa igreja tornou-se em 1877, a do Instituto Católico.

Cumpria-se uma afirmativa de Ozanam, comentou Claude Peyroux: "Parece, havia ele escrito, que nas idades de fé bastava enterrar um santo para ali fazer germinar todas as virtudes". O nosso século, embora incrédulo, viu realizar-se esse mesmo milagre. As obras que Ozanam tanto havia amado se desenvolvem em redor do seu túmulo e uma juventude ardente vem se inclinar com veneração diante do modesto monumento. E pede a Deus que faça reviver nela os exemplos nobres do seu heroico modelo e se compraz em repetir com Lacordaire :  "Senhor, fazei com que sejamos Ozanam."

Sobre o mármore do túmulo onde repousam os despojos de Ozanam, foram gravadas as seguintes palavras: "Quid quaeritis víventem inter mortuos?" Porque procurais entre os mortos aquele que vive? É a palavra dos anjos às piedosas mulheres junto ao sepulcro do Cristo.

Deve-se esperar, comenta o padre Labelle, que esse versículo do Evangelho, em dia que não é possível precisar, será verdadeiro para Frederico Ozanam e que seu nome, de novo, viverá entre os vivos? Inscrito no rol dos Santos ... Ozanam foi um santo... As palavras afloram espontâneas no espírito e nos lábios. É necessário declarar que dizemos isso somente no sentido e na medida autorizada pelos decretos de Urbano VIII? Pode, entretanto, ser desde já recitada uma oração que assim termina:

Oh Deus, se é da Vossa vontade que o Vosso piedoso servo, Frederico Ozanam, seja glorificado pela Igreja, nós vos suplicamos que manifesteis por meio de favores celestes o seu valimento junto ele Vós. Por Jesus Cristo Senhor Nosso. Assim seja.
                                                                                 Cfd. José Amadei


sexta-feira, 19 de julho de 2019

16. A EDUCAÇÃO CRISTÃ





A Educação Cristã




Caros amigos e irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Antes de mais nada quero participar aos senhores, para que depois não saiam daqui decepcionados, que vou apenas tecer algumas considerações sobre a educação cristã, as quais não vão, em absoluto, esgotar o assunto, ficando sem dúvida ainda muita coisa por ser focalizada; será talvez antes uma meditação que farei junto aos senhores sobre a responsabilidade dos pais cristãos.

Faço assim este aviso prévio porque, por ser eu filha de quem sou, pode ser que estejam esperando alguma conferencista, com grandes rasgos de oratória. Infelizmente não herdei esta qualidade de meus pais mas eles me legaram, isto sim, coisa muito mais preciosa, coisa de que me orgulho e que somente lhes poderei retribuir legando-a também aos meus filhos, e que Deus me ajude neste mister: uma Educação Cristã.

E deixo aqui hoje, de público, o meu reconhecimento por este legado inestimável a este querido Paizinho que aqui está e à minha santa Mãezinha ... que aqui está também na pessoa dele; tanto ela está aqui como ele, com ela, no seu leito de dor ...

Parece, a princípio, estranho alguém falar sobre a educação cristã numa Conferência de São Vicente. Mas se o caso fosse de se falar sobre Ozanam, os pobres ou São Vicente de Paulo, milhares de pessoas estariam mais indicadas a tomar o meu lugar hoje.

Não, que neste assunto seja eu então muito competente mas, pelo menos, é o mister de que me devo desincumbir, na situação presente, já que tenho sete filhos pequenos e dos quais lhes posso trazer algum testemunho.

Por outro lado, há uma analogia entre a família, cristã e a grande Família Vicentina. As grandes almas, voltadas ao próximo por amor de Deus, devem necessariamente provir - salvo raras exceções, - de famílias onde se ensina a caridade fraterna, onde o amor a Deus é cultivado desde o berço, enfim, de famílias essencialmente cristãs como foi a de Ozanam.

De fato, nas famílias e, principalmente nas famílias numerosas, as crianças fazem como que um estágio para a vida futura. Que melhor meio para desenvolverem-se virtudes como a Justiça, a Obediência, a Temperança, a Fortaleza? (e como é necessário desenvolver, principalmente nos meninos, esta virtude da Fortaleza!)

Na família a criança precisa dividir seus brinquedos e suas guloseimas; que melhor coisa para lhes incutir a ideia da prioridade do bem comum sobre o individual?

Quando uma criança se entristece e reza por seu irmãozinho doente, está preparando-se para mais tarde saber olhar ao redor e procurar sanar os males do mundo, como o faz os beneméritos vicentinos.

Já que justifiquei,  - penso – convido-os agora a fazerem comigo esta meditação. Ela começa com um trecho da “Casti Conubii” de Pio XI que diz assim:

“Os pais cristão compreenderão que não são destinados só a propagar e conservar na terra o gênero humano e não só também a formar quaisquer adoradores do verdadeiro Deus, mas a dar filhos à Igreja, a procriar concidadãos dos santos e familiares de Deus, a fim de que o povo, dedicado ao culto do nosso Deus e Salvador, cresça cada vez mais de dia para dia."

Quanto a esta última parte do trecho citado, tenho uma pequena estatística a lhes dar: Se um casal cristão tiver apenas cinco filhos e estes, por sua vez, casando-se derem origem a cinco cristãos cada um, e assim sucessivamente, na décima geração teremos perto de dez milhões de cristãos. Se partirmos de cinco famílias apenas, teremos 50 milhões de cristãos e supondo que cada cristão converta apenas um seu semelhante, teremos CEM MILHÕES de católicos integrais a formar um povo de Deus.

Portanto, nós poderemos modificar o mundo. Essa desculpa que se ouve muito por aí: "É, muita coisa está errada mas quem sou eu para mudar o mundo?” é uma argumentação falsa. Nós somos uma força em virtude da Comunhão dos Santos, do Corpo Místico de Cristo. "Uma alma que se eleva, eleva o mundo", já nos dizia o Pe. Demarais.

Mas voltemos à nossa meditação: Assim como não se pode dizer que um soldado ganhou uma guerra somente porque realizou um ato de bravura, assim não é com pôr no mundo uma ou mais crianças que se pode dizer que os pais cumpriram sua missão; eles têm grande tarefa a realizar, trabalhar dia a dia para o bom desenvolvimento desses pequenos seres, já no terreno físico, já no intelectual e, sobretudo, no sobrenatural, que é o de que nos vamos ocupar agora.

A vida sobrenatural da graça não é outorgada à criança pela ação direta dos pais, mas sim indiretamente, quando a levam para receber o Batismo. Ficam desde então os pais, depositários de um "segredo" de Deus, pois têm uma alma a zelar, uma alma que deverá crescer, desenvolvendo principalmente as três virtudes teologais que lhe foram infusas. (Lembremo-nos da parábola dos "talentos”). Mas de que modo poderão os pais influir neste crescimento?

Em primeiro lugar, não lhes sendo empecilho tornando-se transparentes à ação de Deus, ou antes, canais que favorecem esta ação. Em segundo lugar, sendo eles próprios modelos de vivência cristã.

De fato, não se pode, em sã consciência, educar uma criança dizendo: "faça o que eu digo e não o que faço" porque a criança tem uma tendência muito pronunciada para imitar o adulto; é uma verdadeira lei de mimetismo  que nela  se processa. E aqui está a nossa responsabilidade. Que modelo de adulto nós lhes oferecemos?

Quando Ozanam tornou-se pai da pequenina Maria escreveu assim a seu amigo Foisset: "Não posso pensar nessa alma imperecível da qual terei que dar contas, sem que me sinta compenetrado de meus deveres. Como poderei dar-lhe lições, se não as pratico? Poderia Deus lançar mão de um meio mais amável para instruir-me, para corrigir-me e me pôr no caminho do Céu?" (Cartas de Frederico Ozanam, 2º vol., pgs. 59-60).

Lendo o Pe. Caffarel no seu livro "Propos sur l'amour et la grace”, deparei com um artigo dedicado aos pais e no qual ele pergunta abruptamente: "Pais! Vocês amam, verdadeiramente, seus filhos?" E continua mais ou menos nestas palavras: "Estou a ver a estupefação, o escândalo que esta minha pergunta está causando. É lógico que os pais amam seus filhos, pois não fazem tudo por eles? Até parece que este amor foi o único que não sofreu influência nefasta, de maneira alguma, do pecado original! Pois eu não estou assim tão seguro desta afirmação e muitas vezes esse propalado amor nada mais é que egoísmo."

De fato, muitas vezes os pais querem que seus filhos sejam educados e façam uma boa figura porque seus nomes estão em jogo; amam neles o prolongamento de si mesmos, esquecendo-se de que eles têm uma personalidade a desabrochar, uma resposta precisa a dar a Deus quando ouvirem o Seu chamado. Não lhes ensinaram, principalmente, a fazer bom uso de sua liberdade futura, condicionando-a às leis de Deus.

Com efeito, observemos a conversa de adultos à mesa num domingo, por exemplo: em primeiro lugar, critica-se o sermão do padre e suas atividades; dali passa-se para o Bispo: não se está de acordo com suas ordens. O país? Muito mal governado; as leis precisavam ser revogadas... E assim  por diante. O princípio da Autoridade é enxovalhado... e a criança ali está, olhos muito abertos, bebendo aquelas "lições". Em sua mente se forma a ideia de que ser adulto é poder dizer o que se pensa, é poder rebelar-se contra os princípios estabelecidos e nisto consiste a LIBERDADE, tão ambicionada.

Como poderão pais assim espantar-se diante da rebeldia dos adolescentes? Eles estão agindo com lógica. Nós é que estamos completamente errados quando lhes dizemos: "Procurai antes o reino de Deus e tudo o mais virá por acréscimo", ao mesmo tempo que empenhamos todos os nossos esforços e nos preocupamos e fazemos violências para adquirir coisas materiais - um lugar na política, um bom emprego, um casamento vantajoso para o filho, - deixando que o "reino de Deus" é que venha por acréscimo.

As crianças são muito espertas e concluirão: tudo isto que nos pregam é muito bonito, mas na ordem prática das coisas, o que vale é o reverso da medalha.

... E tínhamos o exemplo de Cristo que ao ensinar seus discípulos sempre dizia: "Não digo isto por Mim mas CUMPRO a vontade do Pai que me enviou". De quantas mil maneiras proclamou Cristo a Sua dependência do alto, Ele, o adulto por excelência ...

O Pe. Caffarel citava três exemplos tristes de adolescentes transviados, provindos de famílias ditas cristãs - e nós, infelizmente, teríamos tantos outros a juntar - e concluía afirmando que, se eles não tinham imitado as virtudes cristãs daquelas famílias é que os exemplos contrários ali teriam sido maiores e mais fortes ...

Tenho falado aqui no Pe. Caffarel e não sei se o conhecem ou já ouviram falar no "seu" movimento. Ele é o fundador das Equipes de Nossa Senhora, movimento de espiritualidade conjugal que visa a santificação da família, num sistema de colaboração mútua entre casais, não só no terreno espiritual como até no material.

Vejo, aliás, um paralelo muito chegado entre o Rvmo. Pe. Caffarel e o grande Frederico Ozanam: ambos franceses, ambos fundando movimentos a responder às necessidades do tempo, grandes idealistas e batalhadores todos os dois, tendo ainda ambos consagrado suas realizações à proteção de Maria Santíssima.  

E, coisa mais interessante ainda: fui encontrar em Ozanam uma frase que resume uma ideia explanada pelo Pe. Caffarel naquele artigo. Diz este último que o meio familiar deve ser um ambiente próprio para que as grandes virtudes teologais infundidas no Batismo cresçam e desenvolvam-se. Muito bem, Ozanam, em sua carta a Falconnet, diz, falando das mães: "Benditas sejam as nossas santas mães que foram as primeiras a nos ensinar esse caminho! (o do céu) Quando, pequeninos ainda, nos levavam a CRER, a ESPERAR e AMAR, colocavam, sem pensar, os degraus que galgaríamos para chegar até elas, agora que as perdemos." (Op. cito pág. 237).

De fato, quando os pais respondem às dúvidas de seus filhos com toda a veracidade; quando não dizem, em hipótese alguma, uma mentira a seus filhos ... - e aqui, quanta meditação se tem a fazer! (não há nada que mais mal faça às crianças que dizer-lhes mentira a todo e qualquer propósito!)   - mas quando os pais são essencialmente verdadeiros diante de seus filhos, estão preparando o terreno para que se desenvolva dentro deles a grande virtude teologal da FÉ.

A virtude da ESPERANÇA será cultivada cada vez que o filho se sinta de novo confiante depois de uma derrota, pelo auxilio que lhe prestarem seus pais; cada vez que lhe for apontada a bondade de Deus nos acontecimentos quotidianos; cada vez que se lhes abrirem os olhos para os desígnios insondáveis de Deus nas almas, para o Seu perdão, para a Sua misericórdia...

E a CARIDADE? De quantas mil maneiras se podem regar a semente da caridade até que ela cresça pujante como um enorme carvalho, carvalho esse que talvez venha, um dia a encobrir uma multidão de pecados... "Quem tem caridade tem tudo e de nada valem ao homem todas as outras virtudes se não tiver a Caridade", diz São Paulo.

E como estão certos os Vicentinos, e como estava certo Ozanam, ao fundar este movimento todo dedicado à Caridade!

Mas eu dizia que de mil modos se pode levar as crianças a amar a Deus e ao próximo por amor d'Ele: quando ela percebe e sente que é amada; quando se lhe faz algum pequeno elogio por uma boa ação praticada; quando ela descobre que o próprio castigo que lhe dão é para seu bem - e para isso o próprio castigo deveria ser dado com Amor; em todas estas ocasiões a criança cresce na Caridade.

O modo como tratamos a nossa empregada, - a pessoa de nossa empregada - a maneira pela qual recebemos um pobre que nos bata à porta em horas impróprias ... (será que vemos nele a pessoa de Cristo?); os comentários que fazemos das atitudes alheias... Tudo isto são como espadas de dois gumes que podem ou salvar ou matar a planta da Caridade na alma infantil ...

* * *
A criança, atingindo certa idade de compreensão, que não precisa ser, necessariamente, a dos sete anos, deve-se fazê-la beber as graças na sua própria fonte, isto é, deve-se fazê-la receber os sacramentos.

Lá em casa, nossos filhos têm feito sua Primeira Comunhão aos quatro anos. Muitos acham idade um tanto prematura - e respeito esta opinião - mas, a nosso ver, e não estamos sós, mas com São Pio X, nesta idade a criança já pode preencher os dois requisitos indispensáveis à recepção do Sacramento, e que são: SABER QUEM vai receber e QUERÊ-LO. Ora, quero crer que uma criança de 7 ou 8 anos poderá ter decorado mais fórmulas de orações que uma de 4 mas não acrescentado muita coisa àqueles requisitos.

Quanto ao Sacramento do Crisma, no entanto, - e isto foi objeto de estudos em nossa Equipe - pensamos que deva ser ministrado na adolescência (para as meninas, aos 14-15 anos e para os meninos aos 17-18) porque é nesta época que eles vão usar de sua liberdade, escolhendo então, por convicção e não mais simples tradições, a religião de seus pais; e também porque é este o tempo das tentações mais fortes, quando as almas necessitam de um jorro de graças e dos sete dons do Espírito Santo, pois têm que enfrentar o mundo e "marchar contra a maré, invertendo a ordem dos "valores" vigente.

Sim, nesta ocasião são necessárias muitas luzes e, portanto, é a mais indicada para a recepção do Santo Crisma.

Uma coisa que aprendemos nas Equipes e que está surtindo muito efeito lá em casa, é fazermos a oração todas as noites, em conjunto com as crianças. O pai faz uma pequena introdução, com palavras próprias, agradecendo o dia a Deus e pedindo por alguma intenção especial (um aniversariante, um doente, um acidentado, etc.). Depois, damos a palavra a cada um de nossos filhos e é interessante ver como sabem pedir as coisas, inclusive o pequenino de 2 anos! As vezes temos vontade de rir pela inocência de seus pedidos... mas quem sabe se Deus também não "se ri" de nossos pedidos, tão pueris a Seus olhos?

Acompanhar o ano-litúrgico é outra coisa muito interessante a se fazer, e pela qual as crianças se entusiasmam.

(Estou trazendo estes testemunhos aqui, não para me vangloriar mas, com toda a simplicidade, oferecendo sugestões que poderão ser aproveitadas e melhoradas, ocasionando alegrias também em outros lares).

Preparamos, por exemplo, o Natal passado, propondo às crianças que fizessem pequenos sacrifícios e boas ações durante o Advento. Para incentivá-las, dissemos-lhes que cada bola ou enfeite colorido da árvore de Natal teria que significar alguma mortificação, alguma coisa de bom que fosse feita por eles e por nós; e todas as noites, depois da oração, havia a sessão do enfeite da árvore. Cada qual dizia o que tinha feito, e lá ia uma bola para o galho. Demos também um sentido mais cristão à árvore, dizendo que o tronco era Cristo e nós os raminhos que nós "enfeitávamos" para Ele. Nos últimos dias precisamos estipular que cada bola significaria cinco sacrifícios, pois nem lugar mais havia na árvore e nem mais dinheiro no bolso!

Na quaresma, estipulamos um sacrifício mais positivo e geral: a ORDEM em casa, distribuindo tarefas bem determinadas para cada um. Foi uma beleza! Nossa casa esteve mesmo um "brinco".

Na Páscoa houve um episódio muito interessante, que não me posso furtar à tentação de narra-lo. Nosso filhinho de sete anos fez questão de ir à Missa da meia noite conosco, no São Bento. Explicamos-lhe que na ocasião do "Glória" é que se comemorava mesmo, de modo especial, a Ressurreição do Senhor.

Ele estava todo excitado, os olhinhos muito vivos e atentos. Quando o órgão irrompeu, na mais alta potência e todas as luzes se acenderam, os panos roxos caíram e os sinos repicaram, ele, ficando de pé no banco, também gritou: VIVA!. JESUS NASCEU DE NOVO!

No Pentecostes sorteamos entre os nossos sete filhos, os sete dons do Espírito Santo ... e todos eles se lembravam do dom que lhes coubera o ano anterior ... , exceção feita ao caçulinha.

Muitas outras coisas poderão ser feitas com as crianças para que vivam conosco a Religião: comemorações do Batismo de cada um, dos onomásticos; aulas de catecismo, em que se dê também a palavra a elas afim de que exponham suas dúvidas. E este ponto é muito importante, não só pelo fato de se esclarecer as dúvidas, como é óbvio, como pelo fato de a criança constatar, palpavelmente, que não há contradição entre o que ela aprende no catecismo e o que acreditam seus pais.

Agora, um lar assim, deve ser aberto, tudo isso deve transbordar, deve haver o contacto com outras famílias boas e deve também haver uma influência nos meios não cristãos, tomadas que sejam as necessárias medidas para que não haja uma influência reversa em nossos filhos.

Devemos mostrar às crianças a infelicidade dos outros, fazendo seus coraçãozinhos se enternecerem; devemos fazê-las sofrer, sim sofrer, a inquietação do mundo e fazê-las rezar pelos pecadores. Devemos fugir de ser famílias enquistadas na sociedade ... Existe uma frase que não me canso de repetir, mas cujo autor, infelizmente, esqueci:

"Nosso lar deve ser encarado em função da porta que se abre e nunca em função do muro que o isola”. 
E sobre este assunto encontrei em Ozanam, como não podia deixar de encontrar, um trecho lapidar, constante de uma carta ao Revmo. Pe. Pendola: “Muitas vezes falamos sobre a fraqueza, a frivolidade e a pequenez dos homens, mesmo cristãos, entre a nobreza da França e da Itália. Estou convencido porém, de que são assim porque algo lhes faltou à educação. Alguma coisa não lhes foi ensinada, alguma coisa que apenas conhecem de nome, e que é preciso ter contemplado o sofrimento alheio para aprender a suportá-lo quando um dia ele surgir. Esta coisa é a dor, é a privação, a necessidade. É preciso que esses jovens senhores saibam o que é a fome, a sede, a nudez de uma água-furtada. É necessário que eles vejam esses miseráveis, essas crianças enfermas, crianças em lágrimas. É preciso que as vejam e as amem. Ou essa visão fará pulsar seus corações ou esta geração estará perdida." (op. cit. pág. 387).

* * *

Mas existe ainda uma coisa que os pais cristãos devem fazer por seus filhos e que é a mais importante de todas e que, sem dúvida, estarão estranhando que eu ainda não tenha mencionado.

Sim, é REZAR pelos filhos, e é rezar insistentemente por eles porque às vezes, apesar de todos os esforços despendidos no cultivo dessas almas, sementes de joio das más companhias são atiradas por mãos maldosas, entre o trigo bom das virtudes. Então, teremos que rezar e fazer violência junto a Deus para que não os deixe conspurcar na lama deste mundo.

Rezar por eles, fazer penitência por eles e, se necessário, MORRER POR ELES como fez o Cristo.

Isto será AMAR OS FILHOS.

* * *

E aí está a meditação que lhes propus. É um programa para a vida inteira e é um programa de heroísmo e de santidade. Mas é a nossa missão, e temos que segui-la.

Nosso consolo é que temos uma auxiliadora, uma conselheira para as horas difíceis, um elo entre o céu e a terra: Maria Santíssima.

Quando sentirmos que o barquinho de nossa vida soçobra diante das águas tempestuosas das tentações e dos sofrimentos, peçamos o seu auxílio. Ela saberá alcançar de seu Divino Filho, que estas águas malsãs se transformem no vinho bom das graças divinas que fortificam a alma e alegram o coração. Amem.

 PEROLA MELILLO DE MAGALHÃES
                                                                  15 de maio de 1959.