Pilea Involucrata - Símbolo da Amizade
"Deus colocou em nossas almas duas necessidades que se assemelham mas que não devem ser confundidas. Temos necessidade de pais que nos amam, mas também nos são necessários amigos que nos sejam devotados. A ternura que vem do sangue e a afeição que com simpatia são dois prazeres que não podemos dispensar, e um não pode substituir o outro. A ternura dos pais tem isto de sagrado, que foi estabeleci da imediatamente pelo Criador mesmo, a amizade tem o que há de mais lisonjeiro, pois é mais obra de nós mesmos. Os pais pesam mais na balança, sem dúvida, mas é necessário que o outro prato não fique vazio".
Assim se expressou um dia, O jovem Ozanam, em uma carta a Lallier, a 15 de outubro de 1834. O culto e o dever
da amizade ocuparam lugar de destaque entre as virtudes que ornavam a alma de Ozanam, "alma que, no dizer do Santo Padre Leão XIII ao Cardeal de Lavigérie, não se deveria encontrar outra em França, uma dessas belas almas francesas que reúnem todos os impulsos generosos e puros, todos os nobres sentimentos, todas as virtudes."
Inúmeras são as passagens nas cartas e escritos de Ozanam onde ele revela o alto grau de compreensão e do dever da amizade, a amizade verdadeiramente cristã. Em uma belíssima carta anterior a um primo, Falconnet (19 de março de 1833), carta cheia de doçura e de poesia na qual
confessava o prazer imenso que lhe causaram duas cartas do seu amigo de infância, "aquele sentimento que se experimenta
quando um amigo abre seu coração e deixa ler o que nele encerra",
dizia Ozanam:
"Nossas almas são como duas jovens estrelas que se levantam juntas e se entreolham no horizonte: uma leve nevoa pode passar entre elas e escondê-las algumas horas; mas logo a ilusão se dissipa, e elas reaparecerão puras, intatas, brilhantes uma para a outra, e elas se sentirão irmãs. Confesso que errei ao pensar o que pensei e escrever o que escrevi, mas ouça meu amigo."
Cabe aqui uma breve interrupção. A que pensamentos, a que escritos, a que leve nevoa se referia Ozanam? Eram
explicações sobre a demora nas respostas de Ozanam às cartas de seu primo, solicitando informes sobre sua vida em Paris e
desejando conselhos.
Na carta de 10 de novembro de 1831, ele dizia a Falconnet:
"Mamãe disse-me que ouvindo a leitura de minha carta, tu te compara- vas a um irmão que ouve ler uma carta de seu irmão. Está aí uma comparação que parte do coração e que muito me comoveu, asseguro- te. Sim meu amigo, nós somos irmãos, irmãos na fé e nos estudos, irmãos na idade e nos
projetos, destinados a seguir a mesma carreira; nossas duas
vidas serão irmãs, elas caminharão juntas fazendo-se mútua companhia e tendendo para o mesmo fim. Filhos de um mesmo
sangue, um mesmo pensamento trabalha nossas almas, nossos olhares fitam um mesmo porvir. Não derramaste em mim teus sentimentos, tuas alegrias, teus pesares? e eu, não te revelei meus prazeres, minhas tristezas, minhas esperanças? Sim, Deus nos fez irmãos, pôs em nós a santa fraternidade do espírito, abençoou-a, fez dela a condição de nossos
destinos que serão belos talvez. Não digas portanto que te
esqueço."
Nas cartas de 18 e 20 de dezembro do mesmo ano de 1831, sentindo o vazio que em torno dele se fizera em Paris onde "não havia vida, não havia fé, não havia amor",
uma cidade "que era como um cadáver! ... cuja frieza o enregelava e cuja corrupção o matava ... " "cidade sem fronteiras, lugar de exílio e de peregrinação", manifestava ser a lembrança de sua cidade natal que o consolava "com aqueles que nela havia deixado, com sua provinciana bonomia, com a caridade de seus habitantes, com seus altares de pé e suas crenças respeitadas". E foi então que manifestou o desejo, precursor da sociedade de São Vicente de Paulo, de "rodear-se de jovens, sentindo e pensando como ele; havia muitos, mas estavam dispersos como ouro no monturo, tarefa difícil para aquele que quer reunir defensores em torno de uma bandeira."
Nessas cartas relatava Ozanam a Falconnet seus trabalhos, suas esperanças, seus desencantos, nas lutas em defesa da fé e, aconselhando, acusava o seu primo: "Prepara-te para
a luta com a prática do Evangelho que és chamado a defender. Reza, reza por nós que começamos a caminhada e te estendemos a mão com uma grande e fraterna amizade; sim, tu aqui já tens amigos que não te conhecem, que te esperam e que te abrirão os braços quando vieres a misturar-te com eles."
Voltando à carta de 19 de março de 1833, dia de São José, continuava Ozanam:
"Ouve, meu amigo, a amizade é também uma virgem tímida e ciumenta, que o menor sopro de frialdade faz estremecer, e eu, a cem léguas de distância do meu caro Ernesto, esteja ele envolvido pelo turbilhão de festas e prazeres, ou quando o mundo atroa tão fortemente aos seus
ouvidos, poderia temer que a minha lembrança perdesse lugar no seu espírito e que, muito longe para me fazer ouvir, minhas palavras se perdessem pelo caminho?"
A correspondência entre amigos que a distância velo separar, fazia parte dos deveres de amizade de Ozanam, mas ele não a considerava suficiente. Eis o que Ozanam escrevia a Curnier, aos 9 de março de 1837, carta belíssima no estilo e na profundidade dos seus pensamentos:
"Meu caro amigo, eu não estou satisfeito comigo mesmo, e, apesar disso eu encontro em mim uma coisa, uma só coisa que não me desgosta: é a necessidade de amar, de ter, de conservar irmãos que me amem. Principalmente quando a amizade formando-se por assim dizer, dela mesmo, por um concurso de circunstâncias imprevistas, pela vontade de Deus, que se serviu dessas circunstâncias para aproximar dois homens, essa amizade me parece mais preciosa ainda e de certa forma sagrada. Tal é a que se formou entre nós há seis anos e que o tempo e a distância não arrefeceram, não é assim?" Continuando, escreveu ele:
"E' preciso entretanto convir que a amizade, sendo uma harmonia entre duas almas, não saberia resistir a uma separação prolongada, se elas não trocassem de espaço em espaço sinais de bom entendimento, e esses sinais podem ser de duas espécies: as palavras e as ações. As palavras transportadas pelo papel fiel vão recordar àquele que esquece que não é esquecido; elas dissipam as inquietações, põem em comum dores e tristezas; é realmente um comércio epistolar no qual sempre se ganha, nunca se perde. Entretanto há liames mais fortes ainda que as palavras, são as ações. Eu não sei se o observaste, nada familiariza mais dois homens que o comerem juntos, viajarem juntos, trabalharem
juntos; ora, se atos puramente materiais têm esse poder, os atos morais terão mais ainda, e, se dois ou mais se entendem para juntos fazerem o bem, sua união será perfeita. Assim pelo menos o assegurava Aquele que diz no Evangelho: "Em verdade, quando estiverdes reuni-dos em meu nome, eu estarei no meio de vós". "É por isso que em Paris resolvemos fundar uma pequena Sociedade de São Vicente de Paulo."
"O afastamento tem muitas vezes até o poder de fortalecer as sólidas amizades, as que se formaram sob os auspícios da
fé e da caridade." Longe de se arrefecer pelo efeito de
uma prolongada ausência, elas se recolhem e se condensam de algum modo; elas se nutrem de lembranças."
Ozanam amava nos seus amigos a franqueza. E lhes solicitava a maior
liberdade nas criticas que deviam dirigir-lhe. Ele felicitou Havet por ter suprimido em uma carta as "reticências e os rodeios com os quais uma verdadeira amizade não se acomoda." E a Duffieux escrevia: "De modo
algum quero-te mal por teres usado de franqueza. Ao contrário, agradeço-te esta confiança indispensável à amizade."
A fidelidade e a perseverança são também para Ozanam elementos essenciais à uma verdadeira amizade: "Adeus,
escreveu a Lallier, contai sempre com a minha viva a fraternal afeição e conservai a vossa para comigo, afim de que a hora em que nos conhecemos não seja uma hora perdida em meio a outras de nossa vida e figure entre aquelas de que nos
lembraremos até a morte." E mais tarde, já na Sorbonne:
"Eu sinto que novas afeições não deslocam nenhuma daquelas que já se encontraram no coração e que este se alargará para
nada perder."
O nosso muito nobre amigo e confrade Dr. Duprat, encantou-nos ultimamente com os comentários sôbre sete cartas inéditas de Ozanam a Foisset. Teófilo Foisset, católico de firme convicção e de ação empreendedora, era magistrado em Beaune. Admirador entusiasta de Ozanam, tratava-o como mestre embora fosse Ozanam seu discípulo. Mantendo relações com todas as personalidades marcantes do catolicismo, não conhecia pessoalmente Ozanam e foi visitá-lo em Lyon.
Magistrado embora, interessou-se pelo curso de direito
comercial professado por Ozanam e a ele devemos estas notas sobre esse curso que até nós chegaram mostrando-nos todo o talento, toda a ciência de Ozanam de quem Foisset disse: "Não se conheceria inteiramente Ozanam se não se o conhecesse como jurista". Foi nessa ocasião que entre ambos se estabeleceu uma sólida amizade. Divergiram às vezes em suas atitudes e opiniões, mas a amizade permaneceu sempre firme e inalterável.
Bálsamo - Planta da Amizade
Na primeira carta inédita aqui comentada tão brilhantemente pelo confrade Dr. Duprat, começava Ozanam dizendo:
"É com vivo reconhecimento que recebi vosso excelente livro e
vossa
não menos amável carta: não pude recorrer a um e ler a
outra, sem convencer-me, por uma comparação, de que eu estava com o lado feliz, de que vossa tese é verdadeira e que os
cristãos são os únicos que sabem ser amigos."
E a propósito da
troca de pontos de vista contrários sobre as questões que debatiam escrevia Ozanam a Foisset:
"Não vos quero deixar sob
falsa impressão nem suportar a ideia de acentuada discordância em relação a um espírito e um coração que, como sabeis, eu
tanto prezo. Contudo podereis ter a certeza de que vos sou
reconhecido pela franca cordialidade de vossas criticas." e
transcrevia: Não me será dado esperar que não tenhais mudado de opinião e que ainda me reste o consolo de estar de acordo convosco?
As alegrias e os pesares de seus amigos são suas alegrias e seus pesares. Por ocasião do casamento de Letaillandier, na mesma época em que ele perdia sua mãe ele escreveu ao amigo:
"Que Deus seja louvado por ter semeado rosas sobre o vosso caminho, e, se ele colocou espinhos sobre o meu, que seja ainda louvado!... e nos faça relembrar frequentemente um do outro aqui na terra e nos faça re-
encontrar um dia lá no alto."
E associava-se à dor, às lagrimas dos amigos que o luto em família atingira. A Falconnet quando perdeu sua mãe escreveu ele: "Chorei contigo, meu amigo, procurei tua
mão para apertá-la, teu coração para colocá-lo junto ao meu,
para confundir em uma só nossa desolação de hoje como se confundiam nossas afeições de outrora."
O sentimento de gratidão para com seus amigos ele o expressava da maneira mais comovente. A Ampère a quem deveu, entre tantos benefícios, o de haver contribuído para
a sua nomeação para a Sorbonne e lhe manifestara sua alegria ele escreveu: "Ê necessário que gozeis um pouco do que
haveis feito, vós que, depois de Deus, sois o artífice dessa
prosperidade; vós que me haveis recebido como um irmão na casa de vosso santo e glorioso pai, que me encaminhastes, que me
corrigistes de prova em prova, de degrau em degrau até essa cátedra na qual só tomo assento porque o único homem digno dela não quis nela assentar-se."
Nas suas viagens escrevia a todos os seus amigos para demonstrar-lhe sua fiel amizade. A Dugas, escreveu ele, dizendo-lhe : Vós tomastes todas as providências para que o esquecimento fosse impossível e, crede sem hesitações, que a vossa lembrança acompanhou-me em todos os belos e santos lugares que visitei." E a Dufieux: "Eu quis mostrar-lhe que não há país tão longínquo, aldeia tão perdida, onde não sentisse o prazer infinito de conversar convosco. O que será quando puder provar por um vigoroso aperto de mão que sou sempre vosso amigo ternamente dedicado!
Concebia Ozanam a amizade como um verdadeiro apostolado. Já citamos a exortação feita a Falconnet. A Lallier escreveu: "A vida é tão curta...Sejamos bons durante dez, vinte, trinta, quarenta anos ainda e então surgirá para nós o dia do encontro eterno."
Grato à providência por lhe ter dado tantos e tão bons amigos, ele que somente encontrava forças na amizade, sentenciou: "Deus que aproxima as nuvens para delas fazer
jorrar a chuva, é também Aquele que aproxima as almas, quando lhe apraz, para delas fazer jorrar o amor."
O padre Lacordaire, no seu panegirico sobre Ozanam assim sintetizou o conceito que Ozanam tinha sobre a amizade modo pelo qual a cultivara:
"A amizade não foi para ele o sentimento efêmero de uma juventude entusiasta. Nem os anos, nem o casamento, nem a celebridade enfraqueceram nele a necessidade de amar seus semelhantes. Ele os procurava mesmo abaixo de sua idade por uma condescendência que foi recompensada, e, tendo eu mesmo amado alguém que ele também amava, tive provas comovedoras da afeição que ele sabia inspirar."
Muito ainda se poderá dizer do conceito da verdadeira amizade cultivada ao extremo por Ozanam. Se Deus o permitir voltaremos ao assunto. Gravemos entretanto o seguinte pensamento expresso numa carta a Curnier: "O maior bem, o principio de uma verdadeira amizade é a caridade. E a caridade não pode existir no coração de muitos sem extravasar. É um fogo que se extingue à falta de alimento, e o alimento
da caridade são as boas obras."
Nenhum comentário:
Postar um comentário