1º DOMNGO DO ADVENTO

Marcos 13,33 – 37

Ficai de sobreaviso, vigiai; porque não sabeis quando será o tempo. Será como um homem que, partindo de uma viagem, deixa a sua casa e delega sua autoridade aos seus servos, indicando o trabalho de cada um, e manda ao porteiro que vigie. Vigiai, pois, visto que não sabeis quando o senhor da casa voltará, se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã, para que vindo de repente, não vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: vigiai!

Comentário

Já é hora de acordar! Eis o apelo de Jesus no Evangelho que inaugura este tempo do Advento. Uma nova aurora surge no horizonte da humanidade, trazendo a esperança de um novo tempo de um mundo renovado pela força do Evangelho. Neste tempo de graça, somos convocados a sair do torpor de uma prática religiosa inócua, a acordar do sono dos nossos projetos pessoais vazios e egoístas. Despertos e vigilantes, somos convidados a abraçar o projeto de Deus que vem ao nosso encontro, na espera fecunda do Tempo do Advento, temos a chance de reanimarmos em nós e os compromissos assumidos em favor da construção do Reino, reavivando as forças adormecidas, para a construção de uma humanidade nova, livre das trevas do sofrimento, da marginalização e da morte.

Frei Sandro Roberto da Costa, OFM - Petrópolis/RJ

2º DOMINGO DO ADVENTO

Marcos 1,1 – 8

Conforme está escrito no Profeta Isaias: Eis que envio meu anjo diante de ti: Ele preparará teu caminho. Uma voz clama no deserto: Traçai o caminho do Senhor, aplainai suas veredas (Mt 3,1); Is 40,3). João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados. E saiam para ir ter com ele toda a Judéia, toda Jerusalém, confessando os seus pecados. João andava vestido de pelo de carneiro e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel Sivestre. Ele pôs-se a proclamar: “depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado. Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo”.

Comentário

“Preparai o caminho do Senhor, aplainai as suas veredas”. Clamando pelo deserto, João Batista nos indica que procurar viver conforme a Boa-Nova que Jesus nos trouxe não se trata, simplesmente, de viver dentro de um sistema religioso com certas práticas que nos identificam com tais. Talvez ele queira nos indicar que a fé, antes de tudo é um percurso, uma caminhada, onde podemos encontrar momentos fáceis e difíceis, dúvidas e interrogações, avanços e retrocessos, entusiasmo e disposição, mas também cansaço e fadiga. No entanto, o mais importante é que nunca deixemos de caminhar, pois o caminho se faz caminhando. Boa caminhada de Advento e preparação!

Frei Diego Atalino de Melo

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

5. PROMOÇÃO DE OZANAM










     PROMOÇÃO DE OZANAM


        Todos conhecem a necessidade dos Confrades Vicentinos promoverem a personalidade de OZANAM.

                O próprio título da Sociedade de São Vicente de Paulo e suas atividades multiformes, já projetam em todo o  mundo o nome do grande patrono da Caridade. Mas não podemos deixar de lado o jovem que em 1833, em Paris, preocupado em preservar em seus condiscípulos a fé e a confiança na Santa Igreja Católica, ideou reuni-los em uma associação para alcançar mais êxito com seu ideal.

                Já, em 1850 dizia OZANAM: “Sem dúvida, na situação inferior em que me encontro, quis consagrar minha vida ao serviço da fé, mas considerando-me como um servo inútil, como um operário da última hora que o Mestre da vinha não recebe senão por caridade. Parece-me que meus dias seriam bem mais cheios se, mal grado meu pouco mérito, eu conseguisse reter ao redor de minha cátedra uma juventude numerosa, restabelecer diante dos meus ouvintes os princípios da ciência cristã, faze-los respeitar tudo que eles desprezam: a Igreja, o papado, os monges. Queria recolher estes mesmos pensamentos em livros mais duráveis que  minhas lições; e todos meus votos seriam satisfeitos se algumas almas errantes encontrassem neste ensinamento uma razão para renunciar seus preconceitos, esclarecer suas dúvidas e voltar, com o auxílio de Deus, à verdade católica”. 

            Nesta simples passagem, escrita aos 37 anos, portanto, três anos antes de falecer, OZANAM nos mostra algumas características de sua personalidade que servirão de base ou essência para que possamos, efetivamente promove-lo entre os vicentinos e, principalmente entre os não vicentinos.

                Primeiramente, destacamos sua profunda catolicidade, sua fé inabalável na Santa Igreja Católica. Eis a característica essencial que teremos de observar. Em conseqüência, imitando-o, deveremos induzir nossos companheiros a manterem bem viva essa fé, em que pesem as dificuldades cada vez maiores da ora presente. A crise que afeta a Santa Igreja de Deus não nos deve atemorizar e nem nos demover desse propósito. A situação não há muito se tornou crítica, quando ao se aprovar a nova Regra se discutiu se ela deveria conter essa característica que somente a Igreja Católica lhe confere. Então, se não fomos católicos também não seremos vicentinos.

                Outro caráter que ressalta da referida carta de OZANAM, escolhido ao acaso, é o seu imenso amor pelos jovens. Toda sua vida lhes foi dedicada, e para isso e principalmente na sua profissão de Mestre Universitário, soube impregnar suas lições desse sentimento que foi nele aperfeiçoado por uma profunda devoção à Maria Santíssima. É o segundo ponto a reter: seu íntimo e devotado amor à Nossa Senhora.

                E ainda outro elemento de valia excepcional que ele cultivou com carinho especial; o amor ao trabalho. Ele mesmo o disse: “Se tive algum êxito como professor e acadêmico, foi pelo trabalho, pelos concursos e não por odiosas concessões”. Eis o ponto alto da vida deste insigne apóstolo: o amor ao trabalho. Dele devemos aprender a lição, principalmente nesta época em que, por vezes, predomina a mentalidade do “golpe”. OZANAM jamais seria um golpista. Essa mentalidade que se pavoneia porque soube dar um bom golpe, jamais seria a de OZANAM em qualquer atividade que desenvolvesse.

                Para conseguir a realização de seu ideal, OZANAM percebeu logo que seus companheiros, como os jovens daquela e desta época, são inconstantes e, então, procurou algo que alicerçasse os destinos da jovem Conferência de Caridade, e assim foi levado à prática da caridade evangélica. Mas essa prática foi exercida, em profundidade, primeiro, com os próprios Confrades, com os Mestres, com os amigos e na própria Família. E depois foi levada aos necessitados. Todos eles englobam-se na mesma designação de “pobres”. OZANAM tratava a todos por igual, mas tinha carinho excepcional para com seus amigos da primeira e de todas as horas que com ele fundaram a Sociedade de São Vicente de Paulo. Demonstrou-o várias vezes de forma vigorosa e abundante com suas Cartas.

                Devemos lê-las, relê-las e medita-las. A nós vicentinos compete o sagrado dever de traduzir para os jovens confrades e também para os não confrades, essas Cartas admiráveis que  mostra-nos ao vivo o ideal de OZANAM. Assim, portanto, poder-se-ia concretizar como resultado desta reunião para a “Promoção de OZANAM”:

1.   Desenvolver em cada Conferência Vicentina o estudo das Sagradas Escrituras para fortalecer a fé e o interesse dos Confrades e dos Socorridos;

2.   Promover maior conhecimento e maior entendimento entre os Confrades dentro e fora da Conferência, de modo a se unirem mais fortemente nesta união, suas próprias famílias.

3.   Induzir os Confrades e suas famílias a se conhecerem, participando de reuniões festivas, das quais participarão também, interessados ainda não Confrades.

4.   Reuniões periódicas de Confrades e Consocias para estudarem as modalidades mais apropriadas para trabalhar, não para os “pobres”, mas com os “pobres”. 

5.   Realizar, em conjunto, estudos para intensificação da espiritualidade dos Confrades e dos Socorridos, se possível sob a orientação de um Diretor Espiritual.
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  • Palestra de abertura da Reunião Interprovincial promovida pelo Conselho Metropolitano de São Paulo da SSVP, dedicada à ANTÔNIO FREDERICO OZANAM.

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4. OZANAM, MESTRE E EDUCADOR NO SEU TEMPO E NO NOSSO





Ozanam,Mestre e Educador  no seu Tempo e no Nosso (*)



            Falar sobre FREDERICO OZANAM, comentar aspectos de sua atividade polimorfa, isto é, sob muitas formas,  reviver uma das personalidades de maior projeção na primeira metade do século passado. Bem podemos imaginar o que foi essa vida toda dedicada a um programa de atuação pela verdade católica.

            OZANAM viveu numa época bastante difícil, sem dúvida muito mais difícil que a nossa. Lutas e incompreensões, desajustamentos sociais, civilização em mudança, sob o luzeiro das idéias democráticas que então despontavam, fizeram emergir verdadeiros apóstolos das grandes causas.

            Primeira metade do século 18, que viu nascer OZANAM, PASTEUR, JOÃO BOSCO nas duas primeiras décadas; século da atividade de LAMENNAIS, VICTOR HUGO, KARL MARX, de CHATEAUBRIAND e MONTALEMBERT, intelectuais brilhantes que lutaram com ousadia pelos seus ideais! Foi o século das grandes invenções, invenções de habilidade humana que trariam conseqüências, ainda que extraordinárias, causaram desequilíbrio na organização social. A introdução da máquina a vapor viria transformar profundamente o sistema de transportes, e a locomotiva completaria as alterações desse sistema. O telégrafo encurtaria distâncias e haveria de levar a todos os recantos do mundo os conhecimentos de que eram possuidores apenas alguns privilegiados. Em meio a todas estas modificações da estrutura social, proliferavam as mais diversas doutrinas filosóficas; umas, agitando idéias, e outras promovendo lutas pelo desenvolvimento. Não raro essas doutrinas e essas transformações conduziam a convulsões sociais, num remodelar incessante da sociedade. E no meio de tudo isto, vagava, por vezes em mar revolto, a barca de PEDRO, que em Roma sustentava ardorosamente os princípios cristãos.

            A revolução de 1792 se prolongava pelas décadas do século seguinte. Não eram mais os dias tremendos do terror. Não mais decapitavam sacerdotes, aristocratas ou criminosos, mas as idéias sofriam amputações profundas, muito mais importantes que o rolar de cabeças de reis, magistrados ou sacerdotes. Não se encarceravam os homens, mas se aprisionavam as idéias e com elas, muitas vezes, também os ideais.

            Foi na segunda década desse século que ressurgia do caos originário da Revolução Francesa, que apareceu ANTONIO FREDERICO OZANAM. Seu nascimento deu-se numa fase de lutas, em que o domínio de Bonaparte se estendia para além dos Alpes. Nasceu em Milão, sob a dominação francesa, mas radicou-se em Lyon, onde permaneceu durante a adolescência e mantinha sua residência.

            Desde muito jovem, não obstante sua timidez, manifestara um temperamento de lutador. Não procurava lutar, mas, sabia defender-se.

            Toda sua formação processou-se no Colégio Real de Lyon. Colégio bem diferente dos de nossos dias. Dele há uma descrição de EDGARD QUINET, que nos diz o que era esse colégio sob a Restauração. Possui “abóbadas tenebrosas, portas trancadas e gradeadas, capelas úmidas e altos muros que impediam a entrada do sol”. OZANAM foi aluno externo desde 1822. Os estudos referem seus biógrafos, eram rigorosos. O ambiente teve marcada influência  sobre o jovem estudante, mas muito maior foi a ação benéfica que sofreu de um de seus mestres – Padre NOIROT – a quem ele deveu muito de sua formação cristã. NOIROT era realmente um Mestre, e como tal, formava discípulos. Professor de Filosofia era tido em alta estima pelos intelectuais de maior autoridade. COUSIN, entre eles, costumava qualificar o Padre NOIROT “como o primeiro professor de filosofia da França”. (GOYAU).

            No dizer de GOYAU: “A pessoa do Padre NOIROT exercia maior ação que seu sistema; a familiaridade de sua alma produziu ação mais profunda que suas lições, e se a celebridade de seu professorado permitiu aos contemporâneos falar de uma escola lionêsa, é preciso, para bem avaliar a magnitude deste fato intelectual, reler uma página do professor HEINRICH, um dos discípulos de NOIROT: “Esta escola é inigualável, se sê quiser determinar seu sistema e debater os artigos de seu  Credo: ela existe, se sê trata do hábito de um método sábio, do gosto pelas ideias claras, de um possante espírito de análise, de um profundo sentimento do bem intelectual e moral que se deve fazer a seus semelhantes, e geralmente de uma fé refletida nos dogmas do cristianismo”.

             Como se vê, NOIROT não era apenas professor, mas um verdadeiro Mestre. Ele e OZANAM passeavam juntos nos arredores de Lyon e nessas manifestações íntimas de amizade e interesse por sua formação moral e intelectual, firmava-se a fé no coração do jovem discípulo. Vinte anos mais tarde escreveria OZANAM: “Ele – o padre NOIROT – colocou em meus pensamentos ordem e luz”.

            Mas não foi fácil esse período da vida de OZANAM. Mergulhado nos estudos, ávido de saber, com a inteligência viva, todo ele era precocidade. Dedicando-se seriamente aos estudos, era assaltado por dúvidas. Durante o curso de retórica (oratória), de tanto ouvir falar de incredulidade e de gente que não acredita em Deus, foi tomado de dúvida atroz. É o que nos revela uma carta datada de 5 de janeiro de 1830. OZANAM tinha 17 anos, quando escreveu: “É necessário que eu entre em alguns pormenores, sobre um período penoso de minha vida. Esse período começou quando estava no curso de retórica e que terminou no ano passado. A força de ouvir falar de descrentes e incredulidades, eu me perguntava: porque eu cria? Eu duvidava e, entretanto, eu queria crer. Eu repelia a dúvida. Lia todos os livros em que a religião era provada, e nenhum me satisfazia plenamente. Cria, durante um ou dois meses, baseado na autoridade de tal raciocínio: uma objeção sobrevinha ao meu espírito, e eu duvidava ainda. Oh! Como sofria! Sofria porque queria ser religioso. Procurava VALLAR: VALLAR não me satisfazia. Minha fé não era sólida e, no entanto, gostava mais de crer sem razão do que, duvidar, porque isto me atormentava em demasia. Entrei no curso de filosofia. A tese da Certeza perturbou-me. Num instante cri poder duvidar de minha existência”. (O´MEARA, p.11).

            Foi esta a primeira crise de OZANAM, então em plena adolescência. Venceu-a, diz-nos GOYAU (L.c., p.S), graças ao Padre NOIROT. Com ele o espírito de OZANAM encontrou o prumo.

            Esta primeira crise foi bastante dura. Dela OZANAM guardaria impressão profunda, da qual jamais se esqueceria.

            No prefácio das Obras Completas, iria dizer muito mais tarde: “A incerteza do meu destino eterno não me deixava repouso. Segurava-me desesperadamente aos dogmas sagrados e parecia-me senti-los quebrar em minhas mãos. É então que o ensino de um sacerdote filósofo me salvou. Colocou em meus pensamentos ordem e luz: cri desde então com uma fé segura e, tocado de um bem estar tão raro, prometi a Deus votar meus dias ao serviço da verdade que me dava a paz”.

            Como são diferentes os dias da época de OZANAM comparados aos nossos dias ou os dias de hoje! O sistema que adotamos na formação dos nossos adolescentes não deixa tempo para ter dúvidas... e nem certezas! Por certo, muitos serão os estudantes de nossas escolas médias que passam pelas mesmas dificuldades e questionamentos, como OZANAM. Mas onde eles iriam encontrar um padre NOIROT para conduzi-los ao caminho certo? Onde encontrar o ambiente da seriedade, da confiança, da ética, do incentivo do Colégio Real de Lyon? Pobre geração de hoje que não duvida, porque não tem tempo para duvidar. E não tem dúvidas porque não aprendeu a pensar e questionar. Nosso ensino, falto de objetividade, excessivamente de viva voz, oral, desordenado e ineficiente, atua enchendo nossos estudantes de uma pseudociência, que, por ser falsa e incoerente, não chega sequer a suscitar dúvidas no espírito do jovem adolescente. Ele não estuda, porque memoriza. Não compreende, adivinha. Não se forma, informa.

            OZANAM partiu para Paris para ingressar na Faculdade de Direito. Ia só. Suas credenciais eram ótimas, mas não esperava lá encontrar sequer um conhecido. Ia, porém, armado de uma fé robusta. Os cuidados da mãe carinhosa, seus ensinamentos inesquecíveis, a piedade que lhe incutira na alma, eram escudo seguro nos embates que iria dentro em pouco travar.

            O isolamento de Paris era-lhe muito desagradável. Procurava consolar-se com a correspondência ativa dessa época. Assim escrevia ele: “Permita-me querida mãe, que a force a uma despesa de quatorze “sous” para que lhe possa mandar notícias deste pobre Frederico, que tão bem você e eu conhecemos, e que não se julga esquecido em Lyon, ainda que uma distância de cem léguas dela o separe”. E continuou: “Minha alegria fugaz naufragou completamente. Agora que me encontro sozinho, sem distração nem consolo externo, começo a sentir toda a tristeza, o vácuo imenso de minha posição. Eu que tanto me acostumara aos entretenimentos familiares, encontrando tanto encanto e doçura em rever, cada dia, reunidos em torno de mim, os entes queridos, e que tanta necessidade sentia de conselhos e encorajamento, aqui estou desterrado, sem apoio e sem ponto de ligação, nesta Capital do egoísmo, neste turbilhão de paixões e erros. Quem se apieda de mim? Os jovens meus conhecidos residem muito longe para que os possa encontrar frequentemente. Ninguém mais eu tenho senão você, mamãe, para expandir a alma: você só e o bom Deus... Mas estes dois entes, quantos não valem?”.

            Este trecho mostra-nos a sensibilidade da alma de OZANAM. Quantos filhos saberiam hoje ter palavras de tanta ternura!

            A transição na formação de OZANAM de colegial para acadêmico foi crivada de dificuldades. O ambiente estranho, a cidade imensa, a falta de companheiros, tudo contribuiu para acabrunhá-lo. OZANAM ingressa na Sorbona e logo sente profundamente a adversidade envolvente. No velho e famoso instituto universitário dominava o agnosticismo.(¹) Imperava a incredulidade. Os professores valiam-se da famosa liberdade de cátedra para atacar o cristianismo. E a mocidade que frequentava os cursos intoxicava-se. De repente OZANAM se viu no meio dela!

            Não foi na Sorbona que OZANAM  encontrou o Mestre! Fora dela, pelo menos fora dos seus cursos é que ele foi topar com AMPÈRE, o qual, por assim dizer, continuou a obra do Padre NOIROT.

            Desse homem extraordinário, profundamente consciente, OZANAM haveria de lembrar-se durante toda a vida. A generosidade de AMPÈRE foi sempre assinalada por OZANAM. AMPÈRE era, por assim dizer, a ponte de ligação entre Paris e Lyon. Eis o que diria mais tarde a respeito, OZANAM: “Da humilde e tranquila vida familiar que, faz seis meses, é a minha, volta-se meu pensamento para aqueles dias em que, ao deixar Lyon pela primeira vez, chegava eu, jovem ainda de dezoito anos, ao seio da movimentada e perigosa solidão da capital. E recordo, então, a casa tutelar que se abriu para abrigar minha inexperiência, a família que se dignou admitir-me no número de seus filhos, e aquele que, absorvido pelo sem número de ocupações e honrarias, achou vagar, não se desdenhando tal encargo, para me servir de pai. Essas recordações deixam-me sempre em estado de agradecimento e enlevo. Então, comovido por tanta bondade da Providência, pergunto a mim mesmo, inquieto, que pretendeu ela de mim, colocando minha juventude sob tão raros patrocínios? A afeição que, mais de uma vez, me testemunhastes, e, de modo especial, no fim de minha estada em Paris, deixa-me pensar no prolongamento para o futuro dessa influência que tão feliz eu senti no passado. Talvez devemos compreender que sejam desígnios da Providência Divina que certos homens influenciem o destino de outros homens, podendo essa atuação ser hereditária. Entre tantos dos que herdastes, permiti-me incluir esse patrocínio, de que tanto me honrava o vosso pai”.

            Continuando, OZANAM assim se pronunciou: “Em certo colóquio que mantive convosco, no ano passado, eu vos confiei às hesitações que me eram comuns com todos os jovens que passam da vida escolar para a vida prática a minha repugnância pela agitação dos negócios, as minhas tendências pacíficas, os sonhos de estudos e a necessidade moral em que, entretanto, me encontrava de acercar-me de meus pais, levando uma vida de trabalho em Lyon. Confiei à você, igualmente, a idéia que me haviam sugerido, e que parecia conciliar os pendores de meu espírito com as exigências de minha posição”.

            Sob a tutela de AMPÈRE, e depois, no convívio com LACORDAIRE, MONTALEMBERT e, CHATEAUBRIAND, OZANAM fortalecia cada vez mais sua fé. E pode, durante o curso acadêmico, prosseguir naquele programa que o entusiasmo da adolescência lhe ditara, e, mesmo sendo bem conhecido, vale a pena reproduzi-lo. É o trecho de sua carta a FOURTOREL, escrito aos 17 anos: “E se pretendo escrever um livro aos trinta e cinco anos, devo iniciar aos dezoito os numerosos trabalhos preliminares”. “Conhecer uma dúzia de línguas para a consulta às fontes e documentos; ter regular noção de Geologia e de Astronomia para poder discutir sistemas cronológicos e cósmicos dos povos e dos sábios; estudar, enfim, a história universal em toda a sua amplitude, e das crenças religiosas em toda a sua profundidade, eis o que cumpre fazer a fim de atingir a expressão de minha ideia”.

            Este foi o programa que OZANAM levou, ao atravessar as portas da Sorbona. Diz o comentador que essa carta constitui a explicação de toda a sua carreira.

            Na Sorbona OZANAM logo estabeleceu amizades. Seu encontro com LALLIER, do qual não mais se separaria na amizade, deu-se de modo curioso.

            LETRONNE, um de seus professores, como era então muito comum, atacava a Igreja, comentando de modo desairoso a questão do gênese. Concluía pela inexistência do dilúvio tão bem assinalada nas sagradas escrituras. OZANAM, de um lado e LALLIER de outro estavam em brasas. Não se conheciam. Encontraram-se junto ao Padre GIBIER com quem comentaram a aula do referido professor. Novamente se viram juntos no curso de JOUFFROY, então reconhecido anti-católico. Os ataques de JOUFFROY tiveram pronta resposta. OZANAM encabeçava a lista de protesto. Eram poucos os católicos, mas sua atuação foi viva e positiva. Os ataques do velho mestre cessaram.

            Raros são os exemplos como esse nos dias de hoje! E mais raros ainda os estudantes que ousam tomar tais atitudes. Para isso não basta muita coragem, nem muita fé, mas uma convicção sólida e uma cultura suficiente para rebater os argumentos que vêm habitualmente a tona nas discussões desse gênero.

            Conquistada a láurea, OZANAM quase imediatamente se tornou verdadeiro Mestre. Advogou muito pouco tempo. Logo foi nomeado professor de Direito em Lyon. Para ele criou-se especialmente uma cátedra. Seus méritos, sua sabedoria, sua cultura invejável, foram elementos indiscutíveis para que se lhe oferecessem uma cátedra.

            Como o tempo se transformou! Hoje em dia, especialmente entre nós, o caminho para as cátedras é, em geral, o inverso. Criam-se Faculdades – a lei em primeiro lugar – alugam-se casas que se procuram adaptar para que se ministrem as aulas; depois procura-se o catedrático. Modo estranho, sem dúvida. Mas os resultados não são estranhos. Especialmente na América do Sul, constituem mania a proliferação de institutos de ensino mal aparelhados e com professores medíocres. Não é de se estranhar, então, ver tão medíocre o ensino ministrado! Clama-se por todos os cantos: faltam homens!... mas não se cuida de formá-los bem.

            A aula inaugural de OZANAM foi sensacional. Eis como ele mesmo a descreve em carta de 15 de janeiro de 1840 a HENRIQUE PESSONEAUX: “Uma multidão assistia ao discurso de abertura, chegando a quebrar portas e vidros... Desde então, a sala não deixou de estar sempre cheia, embora possa conter mais de duzentas e cinqüenta pessoas. Entrei, entretanto, com ousadia pelo campo das digressões filosóficas e históricas que as matérias podiam comportar, nem mesmo recuando diante das verdades mais duras. Não me furto, porém, ao ensejo de provocar um sorriso no auditório, pois, como diz DE MAISTRE, “a agulha faz passar o fio”.

            Sabemos que a vocação de OZANAM era a das letras e não da jurisprudência. Conquistou logo o grau de doutor em Direito e pouco tempo depois o de doutor em Letras. Em ambas as láureas, mas principalmente na última, OZANAM revelou-se o Mestre profundo conhecedor de sua matéria.

          Sua tese sobre “Dante e a Filosofia Católica” mostra e comprova como ele seguiu fielmente o programa traçado! A reivindicação de Dante como católico e apóstolo, tirando-o do conceito então em moda, de ser considerado mero poeta, bem demonstra como todo o trabalho de OZANAM era votado à procura da verdade!

            Para bem interpretar DANTE fora necessário conhecer muitas línguas como se propusera aos 17 anos. E a cátedra veio-lhe ao encontro. A narrativa do seu concurso dá-nos uma idéia de como era difícil o acesso ao magistério superior. Nada menos que oito provas em latim, grego, italiano, alemão, inglês e espanhol. E eram vários os concorrentes, alguns deles especialistas de renome. E OZANAM era católico militante, o que, na época e mais ou menos ainda hoje, constituía fator negativo ponderável.

            Mas o valor de OZANAM superou todas as dificuldades. E o êxito foi completo! Iniciou seu curso na Sorbona como professor suplementar e quatro anos mais tarde passou a efetivo.

            Memoráveis foram suas lições. Como disse com muito acerto TRISTÃO DE ATHAYDE: “OZANAM era dos mestres que possuíam os três “C”, isto é, a Ciências, a Consciência e a Comunicabilidade”.

       Profundo conhecedor da matéria de sua especialidade, a literatura estrangeira, haveria, por certo, de formar discípulos. OZANAM conta-nos seus biógrafos, terminava a aula recebendo uma salva de palmas. Logo os alunos dele se acercavam e com ele discutiam o tema da preleção. Mas tarde acompanhavam-no ao jardim de Luxemburgo e com ele palestravam animadamente, indo até sua casa onde os recebia e os punha à vontade. Esse o verdadeiro Mestre! Os discípulos comprovam-no.

            Como são raros hoje em dia tais modelos de professor! A vida agitada dos nossos dias não deixa instante para essas reuniões literárias. Acabada uma aula, professor e alunos se repelem como se fossem os pólos do mesmo sinal de uma pilha elétrica. Bem poucos os professores que levam seu ofício como um sacerdócio, tanto do magistério secundário como superior que tenham as atitudes de OZANAM! Essa é a obra intelectual do jovem lionês.

            Mas, sua ação foi também profundamente educativa. Ainda jovem acadêmico lutou com seus companheiros e pode instituir as famosas conferências de “Notre Dame”, onde a palavra eloqüente de LACORDAIRE atraia toda Paris.

            Seu exemplo como professor consciencioso que preparava cuidadosamente suas lições, por certo, haveria de calar fundo na mente de seus discípulos.

            Mas OZANAM tinha um programa. E teria que executa-lo. E o fez na sua obra máxima realizada nos curtos 23 anos de apostolado. Fundou a Sociedade de São Vicente de Paulo.

            Seu início foi a Conferência de História. Eis como OZANAM relata sua atividade nesse setor: “Não ignoras qual era, antes de minha partida de Lyon, o alvo de meus sonhos. Sabes que eu aspirava organizar uma reunião de amigos que, juntos, trabalhassem pela ciência. Longo tempo permaneceu estéril esta ideia. Apenas um amigo abrira-me a porta de uma reunião literária, bem pouco numerosa, resquício de antiga sociedade dos bons estudos, e cujos processos, pouco científicos, quase não deixavam margem ào deixavam margem edade dos bons estudos, e cujos processos, pouco cient  filosofia e à série de investigações. Nos reuníamos em acanhado recinto. Apenas quinze membros mantinham-se fiéis a estas sessões de estudos, e somente questões transcendentais sobre o futuro e o passado ousavam apresentar-se. Agora, graças ao zelo de alguns dos antigos membros, a sociedade progrediu extraordinariamente, contando sessenta sócios e, entre eles, várias celebridades. Numerosos ouvintes assistem às sessões, ficando o amplo salão em que se realizam completamente lotado".

            “Julgamos necessário impor condições bastante severas para a admissão dos candidatos. Não obstante, multiplicam-se as candidaturas e já recrutamos jovens de grande talento. Alguns desses jovens – viajantes precoces – visitaram diversos países europeus e um deles chegou mesmo a fazer a travessia do mundo. Aprofundaram-se uns nas teorias da arte, outros sondaram problemas de economia política. O maior número, porém, entrega-se ao estudo da história e parte ao da filosofia. Existem, ainda, em nossas fileiras duas ou três dessas privilegiadas a quem Deus concedeu asas, e que um dia se tornarão  poetas, se antes a morte ou as tempestades da vida não as colherem no caminho”.

            "O setor tumultuoso da política está fora de nossos debates. Afora isto, existe plena liberdade.  Apresentam-se também, questões de alta relevância, quando jovens filósofos exigem do catolicismo a prestação de contas das suas doutrinas e das suas obras. Então, seguindo a inspiração do momento, um dos nossos lança-se à arena, desenvolve o pensamento cristão, mal compreendido, recorre à História, para patentear as suas gloriosas concretizações, e, encontrando, por vezes, mananciais de eloquência na grandiosidade do assunto, estabelece sobre bases sólidas a união imortal da verdadeira filosofia e da fé. Não se trata, bem entendido, de discutir proposições teológicas, mas, sobretudo, o alcance científico e social do Evangelho. A discussão é franca, e todas as opiniões, mesmo as dos são-simonistas, são admitidas na tribuna. Contudo, sendo os católicos em número equivalente ao dos que o não são, e, por outro lado, sendo eles mais ardorosos, devotados e assíduos, é sempre a favor deles que se inclina a vitória intelectual. Reina, também, entre eles, franca e íntima cordialidade, uma forma de especial fraternidade, mantendo, em relação aos companheiros, constantes benevolência e polidez”.


“Um grupo de dez do qual faço parte, uniu-se de modo particular pelos laços do espírito, e do coração, formando uma espécie de cruzada literária, constituída de amigos dedicados, entre os quais não existem segredos, uns aos outros, desvendando a alma para mutuamente transmitirem alegrias, esperanças e tristezas. Algumas vezes, quando mais puro era o ar e suave a brisa, à claridade do luar que banhava a cúpula majestosa do Panteão, diante desse monumento que parecia querer alcançar o céu e do qual, entretanto, arrancaram a cruz, como a impedir o impulso, pôde um guarda, de olhar inquieto, contemplar seis ou oito jovens, de braços dados, a perambular, durante horas a fio, pela praça solitária". "De fronte serena e passo calmo, suas palavras tinham vibrações de entusiasmo e sensibilidade. Falavam de coisas terrenas e celestes; entretinham-se em pensamentos generosos e piedosas recordações. Eram conversas sobre Deus, os pais, os amigos que desfrutavam a doçura do lar, a pátria, a humanidade". "Não compreendia tal linguagem o parisiense sensual que apressado os acotovelava em busca de prazeres. Era uma língua morta que a bem poucas pessoas era dado conhecer. Eu, porém, os entendia, pois que deles fazia parte, com eles pensando, falando e sentindo dilatar-se o coração".

            Não obstante os numerosos encargos que possuí não descuida da atuação fora da Universidade, isto é, no mundo político. E isso OZANAM comunicava ao amigo FALCONNET, em carta de 21 de julho de 1834: "Quanto às opiniões políticas estamos igualmente de acordo, isto é, desejaria eu também o sacrifício do espírito político em benefício do espírito social. Conservo, certamente, em relação à velha realeza todo o respeito que se deve a um glorioso inválido, mas não me apoiarei nele, porquanto, com sua muleta não poderia mais acompanhar os passos das novas gerações. Na verdade não me oponho nem rejeito qualquer organização governamental, mas não as aceito senão como instrumentos destinados a tornar os homens mais felizes e melhores. Se queres fórmulas, aqui estão algumas: Creio na autoridade como meio, na liberdade como meio, e na caridade como objetivo final. Há duas formas principais, e estas duas formas podem ser animadas de princípios opostos. Ou consistem na exploração de todos em benefício de um só: é a monarquia de Nero, é o tipo de monarquia que tenho horror; ou é o sacrifício de um só, em proveito de todos; é a monarquia de São Luiz, que reverencio com amor; ou se resumem na exploração de todos em favor de cada um: como a república do terror, república amaldiçoada; ou afinal consistem no sacrifício de cada um em proveito de todos, e é esta a república cristã da Igreja primitiva de Jerusalém, e talvez a dos dias vindouros, a mais alta etapa a que se possa alçar a humanidade".

            E continuou OZANAM expondo seu pensamento: "Todos os governos se me afiguram respeitáveis, enquanto representam o princípio divino da autoridade. E é neste sentido que compreendo o "Omnis potestas a Deo" de São Paulo. Penso, porém, que, em face do poder, se torna necessário um lugar para o princípio sagrado da liberdade. Sou de opinião que deva ser criticado e advertido com coragem, de modo intrépido e altaneiro, o poder que explora em vez de se sacrificar. A palavra foi feita para se tornar o obstáculo que se antepõe à força. É o grão de areia contra o qual vem quebrar o mar".


               "A oposição é útil e louvável, mas não a oposição violenta. Obediência ativa, resistência passiva: as "Prisões" de SILVIO PELLICO e não as "Palavras de um Crente".


            Foi nesse época que OZANAM  que, impressionado com a irreligiosidade de seus colegas, e no afã de levar a palavra de Cristo a todos os corações, procurou e conseguiu a instituição das famosas Conferências de Notre Dame. Ele mesmo relata-nos como foi na carta de 15 de março de 1835 à seu Pai:

"São magníficas essas conferências e são assistidas pelos elementos de maiores projeções da capital: LAMARTINE, BERRYER, etc. uma multidão de literatos e de sábios e, grande número de jovens das escolas. O recinto reservado para os homens abrange toda a imensa nave, abrigando cinco a seis mil pessoas. Estou encarregado de fazer o comentário dessas conferências para o jornal "Universo". Pagam-me vinte e cinco francos por cada um, e as conferências serão em número de oito. Se o bolso pouco recebe, garanto-lhe que o espírito nada perde. É impossível ouvir em  parte alguma dissertações mais eloquentes. Contudo, o padre COEUR, nosso compatriota, distingue-se também, pelos seus sermões em Saint-Roch, e, por outro lado, SAUZET proferiu ontem na Câmera dos Deputados um discurso que despertou unânime admiração, tendo sido comparado aos melhores de BERRYER".

            OZANAM não separava suas preocupações do estudo da História e de sua atividade social. Procurava fundamentar esta com aquela. Eis o que vemos nesta sua carta de 13 de novembro de 1836 ao amigo JANMOT: "Oh! Se na idade média a sociedade enferma não pode ser curada senão pela imensa efusão do amor que brotou, de modo especial, do coração de São Francisco de Assis; se mais tarde novos sofrimentos apelaram para as mãos caridosas de São Felipe Néri, de São João de Deus e de São Vicente de Paulo, quanto de caridade, dedicação e paciência não seria agora preciso para curar as dores desses povos miseráveis, mais indigentes que nunca, por terem recusado o alimento da alma, ao mesmo tempo que lhes acabava o pão para o corpo. A questão que divide os homens de nossos dias não é mais uma questão de formas políticas, é uma questão social, consistindo em saber-se qual levará a melhor, se o espírito do egoísmo ou o do sacrifício; se a sociedade não será apenas uma exploração, em larga escala, em proveito dos mais fortes, ou uma consagração de cada um em benefício de todos, e, principalmente, para a proteção dos fracos. Muitos homens existem que possuem em excesso o que mais ainda ambicionam; muito mais numerosos existem que não possuem o suficiente, e mesmo coisa alguma e, que almejam apoderar-se daquilo que não lhes é dado. Entre essas duas classes de homens uma luta se esboça, ameaçando tornar-se tremenda: de um lado, o poder do ouro; de outro, a força do desespero. Entre esses dois exércitos inimigos, seria preciso que nos precipitemos, senão para impedir, ao menos para lhes amortecer o choque. E nossa idade juvenil e nossa condição medíocre mais fácil nos tornam o mister de mediadores, mister já para nós obrigatório pelo título de cristãos. Eis a utilidade possível da nossa Sociedade de São Vicente de   Paulo". 

       Antes da instituição das Conferências de Notre Dame, preocupou-se com a formação de seus companheiros e com BAILLY institui as Conferências de História. Logo depois, seria levado, por força das circunstâncias, à transformação da Conferência de História na Conferência da Caridade. As discussões, quase sempre estéreis das mesmas, acabaram por desagradar-lhe. O clima tornava-se dia a dia mais favorável para a transformação. Chamado ao debate para mostrar o que então fazia a Igreja, viu-se, de repente de mãos vazias. Não vacilou um instante. Convocou seus companheiros de ideal. "Vamos aos pobres!" Foi o brado lançado no pequeno cenáculo. Ressurgiu uma nova ideia. Fundou-se um novo agrupamento que viria  transformar aquela mocidade universitária da Sorbona e de todo o mundo.

             Notem como são expressivas suas palavras, na carta dirigida a CURNIER de 9 de março de 1837: "(...) Não sei se já observaste que coisa alguma facilita mais a familiaridade entre dois homens que o comer, o viajar ou o trabalhar em comum. Ora, se atos puramente materiais têm esse poder, mais ainda o terão atos morais. Se dois ou mais homens se associam para o bem, será perfeita sua união. Assim, pelo menos, assegurou Aquele que disse no Evangelho: "Em verdade vos digo, quando estiverdes reunidos em meu nome, eu estarei no meio de vós". É por este motivo que, em Paris, quisemos fundar nossa modesta Sociedade de São Vicente de Paulo, e é, talvez, também, por essa razão que o Céu a quis abençoar. Você poderá ver na circular que anexei à esta que, sob os auspícios de nosso humilde e ilustre patrono, já se acham reunidos na Capital duzentos e vinte jovens, e que a obra espalhou-se além das colônias, até Roma, Nantes, Rennes e Lyon. Aqui, particularmente, nossos propósitos tomam vulto e se concretizam. Somos mais de trinta; não nos falta dinheiro e a benevolência das autoridades Eclesiásticas, após algumas leves nuvens, mostrou-se em toda a sua plenitude. Verás que em Paris o desejo é apertar os laços dessa confederação de homens de boa vontade, estabelecendo entre eles contatos regulares, a fim de que se conheçam, se animem e sustentem mutuamente pela força do exemplo e da prece. A sociedade de Nimes, a primeira a instalar-se nas províncias, não se negará a essa fraternal imitação, e suas irmãs considerar-se-ão felizes e orgulhosas de entrar em contato com ela. Não achas que é maravilhoso sentir o coração pulsar num único som com os dos duzentos outros jovens espalhados pelo solo de nossa  França? Não achas que, lançando-se a boa obra recém organizada, como se fora uma moeda, no tesouro comum, a ambição é vê-la perder-se no sem número de boas obras que lá foram também lançadas, confundindo-se todas elas em uma só oferenda para Aquele de quem procede todo bem? E, independentemente da alegria presente, que decorre dessa comunhão de caridade, não existem firmes esperanças para o futuro, mesmo temporal, da sociedade, aonde vai tomar assento esta nova geração, e para o futuro eterno de cada um de nós, em cujo benefício será levado em conta o que todos tiverem feito".

                E continuou OZANAM expondo seu pensamento: "Verificamos dia a dia tornar-se mais profunda a cisão surgida com ímpeto na sociedade civil. Não são mais as opiniões políticas que dividem os homens. É bem menos. São os interesses. De um lado, o campo dos ricos, do outro lado os dos pobres. Em um reina o egoísmo que tudo quer reter; em outro o egoísmo que ambiciona de tudo apossar-se"."Entre os dois há um ódio irreconciliável e as ameaças de uma guerra próxima que será de extermínio. Resta um único meio de salvação; colocarem-se os cristãos, em nome da caridade, entre os dois campos. Que eles caminhem, como desertores benfeitores, de um campo para outro, obtendo esmolas dos ricos e dos pobres resignados. Levem eles dádivas aos pobres, e aos ricos, palavras de reconhecimento. Que habituem uns e outros a se olharem novamente como irmãos, e lhes comuniquem um pouco de caridade mútua. E esta caridade, paralisando e abafando o egoísmo dos dois partidos, e diminuindo aos poucos as antipatias recíprocas, fará com que os dois campos se ergam, destruindo as barreiras de preconceitos. Despojando-se, então, de suas armas de cólera, marcharão ao encontro um do outro, não para se baterem, mas para se fundirem, para se abraçarem e não formar mais que um só rebanho sob o cajado de um só pastor".

                A fundação da Sociedade de São Vicente de Paulo constituiu marco indelével na vida de OZANAM. Foi ela o primeiro fruto visível de seu apostolado fecundo. Não contava mais que 20 anos, e já sabia tocar com mãos de mestre na chaga maior daquela Sociedade enferma. Compreendeu muito cedo que primeiro teria de formar Santos e depois apóstolos. Santidade e apostolado haveriam de andar juntos para resolver aquela camada social que, então, dominava a burguesia que o terror levara ao poder sucedendo à aristocracia. E a Sociedade de São Vicente de Paulo se fundiu com OZANAM. Onde quer que ele esteja, haveria de vivê-la intensamente. É o que vemos quando se localizou temporariamente em Lyon.

                 Vejamos o que ele escreveu em carta de 21 de agosto de 1837 ao seu amigo Le Taillandier: “Tens aqui muitos amigos que se rejubilam com tua feliz aliança, mas que, ao mesmo tempo, lamentam ver perdida a esperança que nutriam de tua companhia. Refiro-me de modo especial a CHAURAND, a LA PERRIÈRE e ARTAUD, pois se quisesse nomear todos quantos te querem bem, seria preciso nomear toda a Conferência de São Vicente de Paulo, visto que a de Lyon está intimamente unida à de Paris. Esta união constitui a nossa força, e esta força aumenta cada vez que, em alguma parte, se funda uma nova Conferência, como aconteceu ultimamente em Dijon e Tolosa. Não poderias organizar uma também em Mans? Não queres dar-nos novos confrades, o primeiro fator de nossa Sociedade? Não procedas, como tanto outros, a quem a família fez esquecer tudo o mais. Tens no coração bastante amor para que o possas derramar mesmo fora do lar. Terás necessidade de maior número de graças que no passado. Não será, pois, o caso de praticar menos número de boas obras. Possa cada um de nós, à medida que envelhecemos em idade, envelhecer também em amizade, em piedade e zelo pelo bem. Possa o patrocínio daqueles a quem consagramos a nossa mocidade: Vicente de Paulo, a Virgem Maria e Cristo, nosso Salvador. Adeus. Sempre teu, muito afetuosamente”.

* Palestra proferida durante uma das Reuniões Interprovinciais promovidas pelo Conselho Metropolitano de São Paulo da SSVP.









3. OZANAM, O APÓSTOLO DA CARIDADE






Ozanam

O Apóstolo da Caridade

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                Bem antes da fundação da Sociedade de São Vicente de Paulo, um dos aspectos mais atraentes de OZANAM é o sentimento inato para o exercício do apostolado da caridade.

                Apenas saído do Colégio Real de Lyon, já dizia de sua intenção de reunir alguns companheiros para o estudo da religião.

                Em 1831, ainda em Lyon escrevia a FORTOUL que o  Padre NOIROT lhe assegurara que “certamente, encontraria jovens estudiosos, aptos a auxilia-lo com sua cooperação e conselho” (8).

                Assim que ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Paris, fez-se amigo de outros jovens católicos, com os quais conviveu intimamente. As questões religiosas os uniam.

                Para OZANAM, particularmente, “Ciência e Catolicismo constituíam seu único consolo”, conforme confidenciava a FALCONNET em carta de 18 de dezembro de 1831 (9). E na mesma carta dizia: “Você não faz ideia do quanto que eu desejaria de estar rodeado de jovens que possuem os mesmos sentimentos e pensamentos que eu tenho. Sei muito bem que eles existem e, em grande quantidade, mas eles estão diluídos como ouro em uma montanha de terra. É uma tarefa muito difícil para quem deseja reuni-los em torno de um único objetivo”. (9).

                Os tempos mudaram, mas neste particular, não muito. Não é hoje idêntica a situação de nossa juventude, principalmente a universitária? Mas inúmeras Faculdades de ensino superior, espalhadas por todo este país, existem, sem dúvida, numerosos jovens estudiosos, interessados no estudo da religião, dispostos mesmos a se aliciarem sob uma bandeira. Mas faltam os OZANAMS para reuni-los, para entusiasmá-los, para convence-los a colocar-se sob o amparo da caridade! Como encontra-los? Primeiro é preciso formá-los e isto, pelo menos nos tempos atuais, somente será possível dentro das Conferências Vicentinas. Multipliquemo-las e transformemo-las em centros dinâmicos de estudo. É indispensável dar uma nova dimensão à vida das Conferências Vicentinas. A sua tônica não poderá ser mais a de meros centros de distribuição de socorros, mas estender-se muito além, para atender ao ideal intelectual de OZANAM, que abrangia todos os pobres, tanto indigentes, como não indigentes. Por que não dinamizarmos nossas Conferências Vicentinas, introduzindo nelas círculos vicentinos de estudo para tratar da religião, das vidas de SÃO VICENTE e de OZANAM, das modernas modalidades de promoção do socorrido, dos problemas de justiça social e como resolve-los, procurando nelas, diretrizes para nossas próprias vidas? Voltaríamos então aos tempos de OZANAM, i. é., as origens da Sociedade de São Vicente de Paulo.

                Este é um ponto importante para meditação dos nossos vicentinos, jovens e adultos. O exemplo de OZANAM é magnífico!

                A personalidade forte de OZANAM atraia seus companheiros. Entre os estudantes que se agrupavam ao redor de OZANAM na Conferência de História havia dois: LAMACHE e LALIER, que formavam com ele uma espécie de diretório chamado “comissão de estudos”.

                É conhecida esta passagem da vida de OZANAM. Não obstante, recordemo-la.

                Ao receber o desafio do participante da Conferência de História,  (Broet) OZANAM retirou-se pensativo, refletindo na justeza da crítica que seus adversários lhes haviam lançado. Encontrou no limiar de sua porta, LE TAILLANDIER profundamente afetado, ele também pelo que acabava de ouvir. Que será necessário para fazer para sermos verdadeiramente católicos, perguntava-se?... “Não falemos tanto de caridade... antes, façamos e socorramos os pobres! Na mesma noite, com vergonha de ter compreendido tão tarde a caridade prática, ambos levaram por suas próprias mãos a um pobre de seu conhecimento um pouco de lenha que lhes restava para se aquecerem durante os últimos dias do inverno”. (8). Eis já realizada, antes mesmo de ter sido formulada a ideia mãe de onde iria nascer, algumas semanas mais tarde, a Sociedade de São Vicente de Paulo. Viver a Caridade, sim, e vive-la intensamente, evangelicamente!

        Aqui vemos a justeza do conceito que muito mais tarde seria expendido por DODIN (4). “A Sociedade de São Vicente de Paulo não surgiu do nada, como um cogumelo depois de uma tempestade. Primeiro nasceu de uma experiência religiosa, singularmente contagiante:  a de  FREDERICO OZANAM; segundo, foi progressivamente formulando e esclarecendo sua finalidade; terceiro, diversificou suas formas de ação utilizando métodos e técnicas novas e, especialmente nos países em vias de desenvolvimento, manifestou uma vontade de progresso e crescimento, que provoca a reflexão e até confusão no velho continente europeu”.

         Vale a pena, a meu ver, nos deter um pouco mais nesta informação do Pe. DODIN. Lembremo-nos que aquela primeira visita de OZANAM e LE TAILLANDIER à casa do pobre, se realizou como disse, antes de ser fundada a 1ª. Conferência Vicentina. Foi, sem dúvida, o fruto da experiência religiosa de OZANAM. Ele não foi sozinho, mas reuniu-se a um de seus diletos companheiros. O espírito da futura Sociedade de São Vicente de Paulo achava-se implícito nesse simples ato de atendimento às necessidades de um pobre. O ideal de caridade já se desenvolvia na alma de OZANAM. Foi necessário um estímulo, um desafio para que de imediato pusesse em prática esse mesmo ideal. A situação da Igreja impunha uma atitude decidida dos católicos.

            Naqueles tempos, o ambiente sob certo ponto era mais favorável, pois a Igreja era atacada. Ela era diretamente visada pelos adversários. Combatiam-na de frente. Hoje isso não mais acontece. Não vemos ataques diretos à Igreja. Ela não é ofendida, mas simplesmente desconsiderada. Para muitos, a Igreja não existe. Mas por outro lado ela ainda, como instituição divina que é, constitui para muitos uma dificuldade a ser contornada. Fingem desconhece-la, mas, com ela se preocupam. Parece mesmo, que nunca se falou tanto na Igreja quanto agora! Os grandes jornais, diariamente, trazem algo que com ela se relaciona. Para tornar pouco transparente o ambiente dos dias atuais, vieram as divergências de opiniões e interesses, gerando desconfiança entre os próprios católicos. E a imprensa acolhe com certa astúcia, esse desentendimento entre eles. É dentro dessa atmosfera de tensão que teremos de promover, cada vez mais acentuadamente, o ideal de OZANAM: “Votar nossos dias ao serviço da verdade”.

           Somente a nossa fidelidade a esse ideal é que poderá dar resposta à pergunta do Revdo. Pe. DODIN: “Como explicar esta continuidade de desenvolvimento que se caracteriza por uma surpreendente e inesperada capacidade de adaptação?” Adotamos a própria resposta dada pelo Pe. DODIN: “Este pequeno prodígio de conservação e de desenvolvimento contínuo, só se pode explicar pela presença de uma realidade viva, dotada de um permanente poder de criação. Esta realidade é o que chamamos espírito das Conferências de São Vicente de Paulo”.

                E continua o ilustre Padre da Missão: “Qual é a originalidade deste espírito? De onde vem sua força regeneradora? Todo grupo humano se define exatamente a partir da síntese ou mistura que se obtém entre seus variados elementos constituídos: 

              •    entre seu ideal e sua finalidade concreta;              
              •    sua função e o ritmo de sua atividade;
       •  sua coesão hierárquica e a interdependência entre seus   membros”.

                Realmente, foi esse mesmo ideal que OZANAM cultivou desde os tempos do Liceu. Ideal  desinteressado, que o levava, sem mesmo sentir, a admitir que eram sublimadas em São Vicente de Paulo; foi esse mesmo ideal que o norteou a, juntamente com seus companheiros, que por ele se achavam de há muito influenciados a fundar a Sociedade de São Vicente de Paulo.

       
  HUMILDADE DE OZANAM

          Mas estes primórdios da Sociedade de São Vicente de Paulo oferecem-nos outros pontos importantes para meditação. Na célebre reunião da Conferência de História, foi manifesta a humildade de OZANAM, quando não revidou como era do seu temperamento, o desafio de seu colega de faculdade de nome Broet. 

               Reconheceu que lhe faltavam elementos para uma justificativa plena. Outro ponto, talvez o mais importante: “não falar tanto de caridade... mas vivê-la”. E como soube ele viver a sua caridade! Apenas seguiu a São Vicente de Paulo que nos mostrou, pelas obras, a extensão de sua caridade!. E nós que nos julgamos seguidores de São Vicente de Paulo e de OZANAM, que temos feito, mesmo em nossas Conferências, para viver realmente a caridade? Que temos feito para imitar esse homem, OZANAM, que no dizer do papa Pio XII (10), foi notável por sua doutrina e sua piedade, cuja memória estimula cada vez mais e cada dia mais entre os cristãos, o zelo e a caridade. 


               Queremos ver no nosso socorrido o próprio Cristo, mas fazemos isto lhe dando apenas o suficiente para subsistir e dispensando-lhe alguns momentos de nossa companhia um dia da semana? E nos outros seis dias, que fará o necessitado? Sejamos mais realistas. Julgamos ter cumprido o nosso dever visitando o socorrido, levando-lhe o auxílio material, apenas suficiente para um dia. Nos seis dias restantes da semana... o pobre que se arranje! E como ele se mantém? Ficando na porta das igrejas com a mão estendida para receber alguns centavos, e depois ser caçado pela polícia e ser preso? Ou se disso não for capaz, mandará suas filhas e quem sabe a própria esposa, vender seu corpo? Ou ainda, transformando, ele e os filhos pequenos nos trombadinhas que irão roubar para sobreviver? São questões que OZANAM também deve ter posto aos seus companheiros. Na sua época acho que não havia trombadinha, mas era terrível a exploração dos menores nas fábricas, para apenas citar um exemplo cruel. E como ele lutou, reivindicando a justiça social até que a lei viesse regularizar esse aspecto mórbido da sociedade de então.

                E se julgarmos pelo que se passa hoje em nossas Conferências, se verá com profunda tristeza como OZANAM é desconhecido dos próprios confrades e consocias! Ainda atual é a frase marcante de LEPETIT(5): “Mas, admitamos pois é a pura verdade, entre a geração atual, muitos ignoram OZANAM e, perdoai-me ao dizer aqui, mesmo entre os confrades de vossa Sociedade; ou mesmo, muitos o desconhecem completamente. Uma grande revista parisiense, em 1953, escrevia sobre o assunto: “Não é absolutamente o que tantos entre nós imaginam, um velho professor de porte modesto e burguês, votado às boas obras e autor de livros sábios que não se leem mais(6)”. Isto foi escrito por ocasião das comemorações do centenário da morte de OZANAM. Sejamos honesto: a situação de hoje é diferente? Como vemos, é importante que conheçamos mais OZANAM, que foi “primeiramente o apóstolo, apóstolo da caridade e da justiça social”. Mártir: nas suas cartas vê-se muitas vezes que ele desejava o martírio e, se ele não foi mártir desta justiça social nas barricadas de 1848, foi somente por obediência ao seu Arcebispo que, diante da evidência do perigo imediato e sangrento, teimou em apresentar-se sozinho diante dos que se rebelaram contra o regime. Confessor da fé, ele foi diante de todos, cristãos e incrédulos, ricos e pobres, sábios da Sorbona e deserdados do Quartier Mouffetard. Ele pode ser escolhido como modelo acabado para todos os jovens da atualidade. Mas quando ele entra nos 38 anos de vida, na via do purgatório da moléstia, torna-se o exemplo das almas elevadas que sabem o preço inestimável de todo sofrimento unido ao do Calvário. (JANVIER)(7)

                Não devemos esquecer que “se a obra de caridade que OZANAM fundou com alguns amigos em 1833, no começo alguma coisa de muito humilde, se seu fundador é despojado de toda a ambição pessoal, todavia, mesmo no seu princípio sem brilho, ela nada tem de mirrado, nem de fraco, porque a ideia que OZANAM tem da caridade, não é bem a da caridade comum, no sentido pleno da palavra; a caridade para ele não se reduz à esmola nem mesmo ao que os textos tradicionais designam pelo termo mais geral de misericórdia corporal; a elevação dos espíritos, e ascensão das almas está sempre, mesmo implicitamente, no primeiro plano de suas preocupações, e eis o que explica que, ultrapassando a esfera dos pequenos aos quais ia sua solicitude de visitador dos pobres da Sociedade de São Vicente de Paulo, teve a preocupação da indigência ou dos bens espirituais de muitos de seus contemporâneos para os quais a caridade do apostolado cristão não se podia exercer senão pela via intelectual e era para eles que ele concebeu esta fundação, toda diferente, mas pelo espírito semelhante ao das Conferências da Sociedade de São Vicente de Paulo; as Conferências de Notre Dame, das quais ele não é evidentemente o fundador pois que elas não podiam ser e não o foram efetivamente instituídas senão pela hierarquia da Igreja, mas das quais bem se pode dizer e se deve dizer que ele foi o primeiro chefe iniciador”. ( ZEILLER, J.)(11).
                Por outro lado, se a caridade não foi, jamais, para OZANAM, restrita à esmola material e nem ao socorro à vida corporal, ele não reduziu seu ideal de servidor dos que sofrem com a miséria, com o auxílio, que ele podia com seus amigos, levar-lhes pela sua vontade, mesmo a mais engenhosa, mas que permanecia, pelo tratamento do mal social, no domínio dos paliativos. Foi, no seu tempo, um dos homens, um dos primeiros, talvez o primeiro, que viu e ousou dizer que havia na sociedade civil, tal como era transformada sob a influência do movimento industrial e de causas ligadas à indústria, um mal profundo, que não seria curado pelas manifestações da solicitude, mesmo a mais sincera e a mais testemunhada pelas vítimas deste mal e que necessitaria de remédios maiores (LEPETIT) (8).

                No jornal “Ère Nouvelle” (Nova Era), batalhava por uma ordem social justa. Chamava os cristãos ao que ele denominava de “cruzada da caridade” e ao mesmo tempo animava-os a ter uma concepção mais justa das relações sociais. Como dizia LACORDAIRE, ele e OZANAM saudavam as transformações em vias de se elaborarem com e após a Revolução de 1848, um encaminhamento “para uma melhor distribuição dos elementos sociais, arrancando de uma classe que muito tendia a dominar com exclusividade os interesses, a idéias e os costumes”.

                Tanto assim que 10 anos antes, no seu curso de Direito Comercial professado em Lyon em 1840, OZANAM havia já dito: “A caridade é o samaritano que verte o óleo nas chagas do viajante atacado. Compete à justiça prevenir os ataques”. E ele não hesita em declarar nos artigos na “Ère Nouvelle” que “os cristãos se enganam acreditando-se quites com o próximo quando cuidaram dos indigentes como se não houvesse uma classe imensa de indigentes, mas pobres que não querem esmolas nas instituições”. (ZEILLER, J.) (11)

                O movimento social atraia as idéias de OZANAM. Em seu curso de Lyon havia já preconizado o salário familiar, o seguro contra a invalidez e a aposentadoria para a velhice. Não parece um profeta dos tempos novos e um precursor das Encíclicas de Leão XIII e de um Pio XI?

                Devido às suas idéias avançadas OZANAM sofreu muito. E ao sofrimento do espírito não tardaria a ajuntar-se o sofrimento de um corpo que a moléstia ia logo arruinar, com a tristeza de sentir sua saúde gravemente atingida e finalmente perdida e de dever abandonar progressivamente as atividades que lhe eram mais queridas.

                O terceiro aspecto da grandeza de OZANAM e o terceiro dos testemunhos que ele prestou foram o testemunho votado à verdade por seu ensino e sua obra intelectual, testemunho da caridade por sua vida de devotamente agindo junto ao próximo, como por seus combates pela justiça social e sua cruzada da caridade, testemunho enfim do sofrimento da maturidade. É por aí, talvez, que um cristão pode mostrar-se maior, pois que ele avança por sua vez na vida que o Cristo quis seguir para salvar o mundo. (ZEILLER, J.) (13).

APRENDENDO COM OZANAM

                Quantos ensinamentos a tirar da vida de um homem cuja profissão consistiu, com efeito, em ensinar, mas que ensinou tanto por sua ação como por sua paciência, quando a ação lhe foi impedida ou restrita! Recolhamos, pois, para lição nossa e formação, esse triplo testemunho.

                O testemunho do sofrimento aceito, depois transfigurado, para todos aqueles dentre nós a quem ele pode ser imposto, para uns, somente penoso, para outros, desumano.

                O testemunho da verdade, mesmo sobre o plano da ação caritativa que é o nosso, como confrades e consócias de São Vicente de Paulo, nos impõe um dever de guardar nessa mesma ação uma visão objetiva, de saber reconhecer as práticas que não são corretas, para substituí-las por outras melhores e de qualidade  e, principalmente, ver e dizer, como fez OZANAM, o que, na evolução dos acontecimentos do mundo, é não somente doloroso, mas condenável, como os egoísmos que recuam diante de um sacrifício material que lhes custa muito ou que levam à exploração do próximo, por exemplo, em matéria de habitação,  a excessos que clamam vingança ao céu.

                Admite-se que o testemunho da caridade é hoje de primeira ordem. Certamente, será preciso dizê-lo, que a ação caritativa de um membro da Sociedade de São Vicente de Paulo é infinitamente modesta; mas devemos nos esforças para que ela não o seja demasiado, e por exemplo, não se deveria contentar, nas coletas durante as reuniões das Conferências, de uma oferta irrisória. É também preciso usar  no atendimento ao próximo de um zelo e uma engenhosidade incessantemente alertas, susceptíveis de chegar a alguns resultados positivos.
 
                Mas existe mais e a outra coisa a dizer aqui: o que mais faz falta ao mundo de hoje é um clima de caridade, uma vez que não somente o ódio nele é praticado, mas é, também, pregado; muitos fazem dele uma virtude, o que sem dúvida é suficiente para julgar sua doutrina. Se opusermos o amor ao ódio, ou antes, se, sem proclamar essa oposição, procurarmos, em face do ódio, praticar o amor, espalha-lo pelo exemplo, fazer-lhe sentir o benefício, nós faremos, mesmo nessa esfera muito limitada que é a nossa, pela nossa parte muito pequena, o que é melhor para o mundo presente. (ZEILLER, J.) (14)

                OZANAM era essencialmente, na sua vida profissional, um teórico. Professor de Literatura, habituou-se a pesquisar nos textos originais os elementos essenciais para fundamentar suas aulas magistrais. Mesmo na investigação científica, a que devotou grande parte de sua vida, como seja o estudo de Dante, OZANAM procurou não se afastar da realidade. Assim, ao nosso ver, se poderia explicar a adoção imediata, repentina quase, de concretizar a idéia extraordinária de mostrar aos adversários as realizações da Igreja. Não se tratava, por certo, de apenas atender a um desafio, mas muito mais, foi estabelecer uma ponte entre seu ideal e sua finalidade concreta. Por outro lado, a ocasião era, por demais, propícia para colocar-se inteiramente, ao serviço da humanidade sofredora. Era atender os pobres que se achavam relegado ao abandono.    
                                                                   
                E aqui aparece, ao lado de OZANAM e de seus companheiros a admirável, IRMÃ ROSALIA.

                Foi a conselho de BAILLY que OZANAM procurou esta alma apostólica, que passou a constituir na realidade, a mestre dos noviços dos novos missionários da caridade. De coração largamente aberto a todos os sofrimentos, recebia a todos, principalmente, a estudantes em dificuldades que iam até seu pequeno escritório da rua Monffetard para pedir orientação, recomendação e mesmo auxílios materiais.

                De DESMET (1), seu biógrafo, retiramos as seguintes notas: “OZANAM conhecia o caminho. Ela lhe havia dito um dia, conhecendo as delicadezas de sua bela alma sensível, que o expunham a uma excessiva liberalidade: “Meu filho, o que digo aos seus amigos, não tenho necessidade de dizer a você. Graças a Deus, você compreende o Pobre, como se deve. Mas temo pelos excessos de seu bom coração. Escute esta história: e Irmã ROSALIA lhe contou a história pouco comum de um jovem que tinha, ele também, demasiado bom coração e que na véspera havia dado tudo que possuía. Ora, na mesma manhã, um visitante o havia surpreendido ainda na cama. Era um pobre desgraçado, seminu, maltrapilho, em estado lastimável; não escutando senão seu bom coração deu-lhe a única coisa que lhe restava, seu hábito, que vestiu completamente. SÃO MARTINHO teria feito melhor? Mas, então, ele precisou enviar a Irmã ROSALIA uma mensagem e implorar seu socorro para sair do embaraço. E logo Irmã ROSALIA se pôs, sem demora, a socorrer o infortunado. Mas enviando-lhe um pacote com as roupas, acrescentou este bilhete: “Meu pobre amigo, se um dia você vier a ser bispo, você dará a sua cruz e a sua mitra!”. Realmente, tratava-se de M. DUPUCH que se tornou mais tarde bispo de Alger.

                A lição era para OZANAM e a Irmã ROSALIA disse-lhe isso com um sorriso malicioso. Ela tinha o dom da profecia. O jovem, realmente, tornou-se bispo e conservando em seu episcopado o hábito de dar sem calcular, aconteceu, à força de generosidade, ter de esposar a santa pobreza e dar sua cruz e sua mitra. 

                OZANAM vinha voluntariamente à Epée-de-Bois, ao santuário da caridade. Saindo de casa de BAILLY sob a emoção das últimas discussões da Conferência de História, foi procurar junto da Irmã ROSALIA os conselhos que comportavam as circunstâncias. Veio com LE TAILLANDIER e, então, se decidiu que, para responder ao desafio da Conferência de História, iniciaria qualquer obra, das que dão mais alegria a Nosso Senhor, uma obra de caridade. Levariam os socorros aos pobres; e aos socorros materiais ajuntariam uma simpatia cordial, nas visitas pessoais, amigas e fraternas.

                O caminho entre a Sorbona e a rua da Epée-de-Bois foi mais que nunca conhecido e frequentado. Irmã ROSALIA teve a alegria de ver reunirem-se, as vezes, na sua casa, os primeiros Confrades de São Vicente de Paulo, de
encontrar entre eles um jovem que tinha o nome dos Rendu e de presenciar que o belo fogo da caridade se avivava e se propagava. Os jovens vinham até ela em grupo; vinham, também, individualmente, procurar recomendações e reconforto. Levavam ensinamentos e ordens de serviço e espalhavam-se pelas rua do distrito.

                A experiência de Irmã ROSALIA que conhecia bem sua “Diocese” lhes foi de um preço inestimável. Ela orientou seu apostolado, guiou suas idas e vindas no distrito, deu-lhes endereços, bem escolhidos, famílias necessitadas, o “Banco da Providência” que tinha sua sede na rua da Epée-de-Bois teve, também, de funcionar nestes começos. Ela teve de reforçar generosamente a caixa da Conferência, que simplesmente alimentada pela coleta semanal, não era rica. O “Banco” funcionava, pois, nestes dias.  Onde iam procurar fundos? Não sabiam! Eles vinham de toda a parte. A Providência recrutava de toda a parte os doadores. E a casa da rua Epée-de-Bois exercia esta misteriosa atração que fazia nascer sempre uma heróica caridade ascendente. Os socorros chegavam nos momentos de necessidade. E Irmã ROSALIA dava, e dava sempre sem medida; isto se diluía na mão dos pobres Os Confrades da Conferência se beneficiaram no início de um grande crédito e puderam distribuir no quarteirão, abundantes esmolas.

                Com suas esmolas, era, também, um pouco de sua cultura e de sua distinção que eles davam. A cultura do Quartier Latin, afinada de toda a distinção de belas almas de cristãos, ia para o futuro levar sua beleza ao Quartier Mouffetard, na cara “Diocese” de Irmã ROSALIA. OZANAM leva-lhe sua alma poética e realista ao mesmo tempo, sua fronte majestosa de pensador profundo e de apóstolo, mas, também, seu “sorriso irresistível” de jovem piedoso e em intimidade com Deus. Em compensação, todos estes humildes condutores da Mensagem Cristã fariam, no seio da miséria do pobre povo, a descoberta de uma riqueza de sentimentos que os edificaria e os enriqueceria: espontaneidade, nobreza, grandeza de alma, eles descobriram entre os pobres, toda esta beleza amoral durante suas visitas. Havia então uma troca feliz de bons serviços, em que os Confrades seriam, talvez, os que mais lucravam. A prática da caridade desenvolvia neles o espírito da fé, preservava e elevava suas almas.

                A influência da Irmã ROSALIA foi, não poucas vezes, decisiva sobre o desenvolvimento da nova Sociedade de São Vicente de Paulo. No momento crucial em que se debatia o desdobramento da primeira Conferência, como vimos, preponderou à opinião de OZANAM que assim teve ensejo de manter a unidade entre as Conferências. O debate que foi “rude, obstinado, prolongado, cessou quando o autor da proposta, LE PREVOST, afirmou que a ideia não era dele, mas provinha da Irmã ROSALIA.  O efeito foi fulminante: o nome da Irmã ROSALIA fez cessar todas as oposições. Seu conselho foi adotado”. DESMET(1).
                
               O inestimável auxílio da Irmã ROSALIA não se reduziu aos conselhos e mesmo distribuição de serviços. Havia no seu trabalho verdadeiras lições de apostolado da caridade que foram guias inestimáveis para os novos Confrades que frequentavam o escritório da rua Epée-de Bois. Eis apenas um dos muitos exemplos que colhemos em DESMET²: “Entre seus visitantes distinguiu um que ela conhecia bem e ao qual havia feita uma promessa. No seu escritório encontrava-se um pacote pronto que ela lhe devia enviar; esmola preciosa para um homem honesto, bom burguês, que vivia na miséria. Ergueu a cabeça e fez-lhe sinal: “Senhor, tenho precisamente um pequeno serviço a pedir-lhe”. “É muito urgente; uma encomenda para ser levada a alguém que mora perto de sua casa e que a espera”. “Ei-la e nela encontrará o endereço”. O homem partiu e ficou muito admirado ao ler seu próprio nome no pacote que ele levava. “Era um pobre envergonhado, de que a Irmã ROSALIA, por este meio, havia respeitado o amor próprio”. E acrescenta o referido autor DESMET(³): “A delicadeza da Irmã ROSALIA era uma de suas formas de caridade”. Foi essa a forma que constituiu a formula principal de atividade vicentina e que chegou até nós. 

                Admirável lição, exemplo magnífico da verdadeira caridade evangélica. Nela se revelam as virtudes de VICENTE DE PAULO e de OZANAM: a simplicidade e o verdadeiro amor ao próximo!

                Foi assim que os primeiros confrades aprenderam a viver a caridade.

                Pelo que acabamos de ver, o apostolado da caridade de OZANAM não era restrito aos indigentes. Estendia-se, talvez, aos não indigentes. Com a visita aos primeiros entrava em contato direto com a miséria e procurava conhece-la para melhor combate-la. O resultado era a promoção do socorrido. Mas não é somente isso. Com esta visão concreta das condições miseráveis de grande parte da população de Paris, adquiria elementos preciosos para trabalhar na cátedra, no meio social, na política, em favor de uma justiça social aliada à caridade.

                Completava-se assim o apóstolo. É este exemplo que todos nós vicentinos de hoje deveremos ter sempre presente.

                Cada um, no meio em que viver, deverá procurar manter vivo esse exemplo, agindo de modo a tornar-se verdadeiramente vicentino. Foi o que fez OZANAM. É o que todos nós devemos fazer também.
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Bibliografia:
1.            DESMET, H – 1953 – Soeur Rosalie, 365 pp. Paris, p. 151
2.            DESMET, H -  loc.cit.., p. 185
3.            DESMET, H -  loc. cit.
4.            DODIN, A. – 1978 – Que é uma Conferência? “Voz de Ozanam” 13 (2): 57-59. São Paulo.
5.            LEPETIT, loc. cit. p. 23
6.            LEPETIT, loc. cit. p. 24
7.            LEPETIT, loc. cit. p. 25
8.            OZANAM, A.F. – 1831 – A Hipólito Fortoul e H...em Cartas de Frederico Ozanam, 1º. Vol. (1831 – 1842). Trad. Port.de João Pedreira Duprat, vol. 1: 303 pp. 1ª. Ed. brasileira – 1953, pág. 6.
9.            OZANAM, A.F. – 1831 – A Ernesto Falconnet, em Cartas de Frederico Ozanam, ibidem, pág. 30
10.          PIO XII – 1953 -  Lettre à notre fils Maurice Felton. Em Centenaire de la Mort de Frédéric Ozanam. 172 pp. Ed. Senil. Paris.
11.          ZEILLER, J. 1953 – Lê Temoignage d´Ozanam. Em Centenaire de la Mort de Frédéric Ozanam. Ibidem. Pg. 42.
12.          ZEILLER, J. – Loc. Cit. p. 44.
13.          ZEILLER, J. – Loc. cit.  p. 45
14.          ZEILLER, j. -  Loc. cit.  p. 47
                              
              

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SUGESTÕES PARA DEBATE


II -   APOSTOLADO DA CARIDADE

a.     Espírito comunitário de OZANAM
                1 – No colégio
                2 – Na Universidade

b.     Características de OZANAM
                - simplicidade
                - humildade
                - caridade
                - indigentes
                - não indigentes

c.      OZANAM e a SSVP
                1. Fundação da SSVP
                2. Desdobramento da 1ª. Conferência
                3. Preservação da unidade de SSVP
              
d.      OZANAM E BAILLY
                1.Influência da Irmã ROSALIA
                2. OZANAM e os vicentinos hoje
                3. Como torna-lo conhecido dos próprios Confrades
                4. E, principalmente dos Universitários

                OUTRAS SUGESTÕES

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(* 2ª. Palestra proferida durante as comemorações do 1º. Centenário da Fundação do Conselho Superior do Brasil da SSVP.)